segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Mais um café, por favor!



                Eu te amei com a força de um milhão de corações, e você só me provou que a ingratidão tem nome e endereço. Eu te escrevi centenas de versos sinceros, e você sequer leu o bilhete de bom dia que eu lhe deixei na mesa da sala. Eu te idolatrei como uma princesa de conto de fadas por incontáveis anos, e você nem ao menos teve a decência de me dar aquela chance que tanto prometeu. Eu te propus todas as formas possíveis de vida ao meu lado, e você se quer respondeu minhas mensagens antes de me trocar por outra pessoa. Eu fui capaz de fazer o mundo inteiro acreditar que nós éramos perfeitos um para o outro, em certos momentos até você mesmo acreditou, mas mesmo assim continuou apenas me alimentando com a ilusão de que em um amanhã eu poderia ficar ao seu lado.
                De todas as ilusões que eu tive o desprazer de viver na minha vida, você certamente foi a mais idiota. Por que eu fui idiota. Por que ela nunca aconteceu. E eu desisti dela dezenas de vezes e me fiz acreditar de novo outras dezenas de vezes, pra sempre no mesmo buraco me lamentar o fato de que você nunca vai me olhar da maneira como eu a vejo. E mais uma vez eu choro enquanto você dorme a noite, alimentando a certeza dessa via de mão única que existe em torno de uma amizade que beneficia demais o seu egoísmo. Qual era sua desculpa mesmo? Medo?
                Se existe um Deus acima de mim eu espero que ele esteja observando o tanto que eu me entrego e confio nas pessoas que eu amo, pra domingo a noite ter que tomar essas bordoadas da vida e me sentir a pior pessoa do universo. É triste ter essa certeza de que as magoas que são causadas aqui dentro são permanentes, e com tempo, tudo o que é bonito acaba perdendo a magia, o brilho e a aquela doce imagem de que o amor é infinito, único e transcendente a qualquer litígio ou banalidade cotidiana.

                Na verdade, eu que me cansei. Boa noite.

***Dá um like ai pra ajudar? Muito agradecido!

domingo, 21 de dezembro de 2014

Infinito, infinitesimal, Eterno




O eterno. O que é o eterno? O que seria o eterno senão a infinita soma de pequenos, infinitos, infinitesimais eternos juntos.

Conheci uma garota esses tempos atrás. Ela gostava de fumar e eu odiava aquilo, mas amava ela, então sentava ao seu lado e assistia aqueles rodopios de fumaça fugirem de sua boca. Em câmera lenta, a fumaça parecia uma entidade viva, como se um pedaço da alma dela saltasse para fora e voltasse, timidamente, para seu corpo, à cada baforada nicotinada.

Seu beijo tinha gosto de maçã (porque ela usava gloss de maçã, mas isso não vem ao caso) e seu corpo era pálido como uma nuvem, e quando eu me deitava em seus seios, podia sentir sua respiração ritmada, como se um carnaval morasse dentro dela. E realmente morava, um carnaval de sentimentos, flores e pensamentos que saíam pelos seus olhos, pela sua boca, pelo seu corpo todo.

Ela era uma obra de arte viva, tudo que via pintava. Algumas vezes em fotos, outras vezes no próprio corpo, mas frequentemente em lágrimas e sorrisos curtos. Mas o que é o eterno senão a soma de todos os eternos curtos sorrisos?

Nos conhecemos na internet (como todo mundo, né), vi sua foto pelo perfil de um amigo e me apaixonei naquele instante. Nunca tinha visto uma menina/mulher tão linda. Seus olhos eram profundos e silenciosos. Eternos.

Na primeira vez que nossas bocasse tocaram, não foi eterno, foi na verdade estranho. Não combinamos muito bem no beijo e nem na vida, pra falar a verdade. Ela gostava da cidade e eu vivia escondido, explorando florestas por aí. Ela amava o rock, e eu o shot. Ela não comia chocolate preto, só branco. Eu comia de tudo, não tinha frescura. Quando nossas bocas se tocaram, elas não se encontraram muito bem, demonstrando na carne a diferença entre nossas almas. Foi o melhor beijo da minha vida.

Namoramos por três eternos meses. Ela do meu lado, na cama, olhava com seus olhos profundos. "Eu gostaria que isso fosse eterno" dizia ela depois de um orgasmo. E eu, exausto, dormia. Dormia em seus braços quentinhos e me sentia seguro como nunca. Sentia-me livre de quaisquer amarras, de qualquer fingimento, nos seus braços eu era eu, apenas eu. Eternamente eu.

Ela morreu. Um dia um cara bêbado pegou o carro de um amigo e acertou-a enquanto atravessava a rua. E em um instante ela se foi para sempre, sem nem dizer um tchau e até logo. O eterno havia acabado para sempre e eu morri junto com ela.

Desculpe pela mudança abrupta no modo de escrever, mas foi assim que se passou em minha mente. Ela morreu, simplesmente assim.

"Você tem de esquecê-la",
Ela não gostaria de te ver triste",
"Era só uma namoradinha",
"Homem não chora",
"Quem mandou ela não prestar atenção",
"Se tivesse em casa não teria sido atropelada"
"Eu te entendo, meu filho",
"Meus pêsames",
"Infelizmente, nada é eterno"

E eu pensei comigo e parei por um momento. Eterno. O que é o eterno? O que seria o eterno senão a infinita soma de pequenos, infinitos, infinitesimais e eternos estarmos juntos. Quantos segundos há em um minuto, quantos centésimos há em um segundo, quantos milésimos há em um centésimos? Quantas infinitas divisõeszinhas existem em uma fração de tempo. Infinitas. Infinitesimais. Eternas.

O eterno é feito de eternos. Eternamente dançando entre si e formando o tempo, que passa gentilmente entre nossas existências.

Ela dizia que queria estar ali eternamente e esteve eternamente. Namoramos por três meses, que foram eternos. Cada beijo durou eternos pedaços infinitamente somados de tempo. Seja para formar um segundo, um minuto ou três meses.

Sinto sua falta. Sinto tanto. Mas sei que estivemos e estaremos juntos eternamente.



Segredos de Liquidificador - Diego William Ferreira


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Tampouco Naufragado

      

    Em uma única semana eu realizei a proeza de ser indagado pela mesma pergunta quatro vezes, por quatro pessoas totalmente diferentes e não interligadas. Elas certamente anteciparam meu natal em família com a pergunta chave dos tios e tias em eventos desse tipo. Já sabe a pergunta? Não, não é a do pavê. Aliás, eu adoro a do pavê, vou ficar pra tiozão chato mesmo... A pergunta foi a seguinte: “Por que você não namora?” E eu me surpreendi ao perceber a pouco que eu respondi quatro vezes de maneiras completamente distintas, mas todas com sinceridade. Maldito esse meu coração que prefere ser uma metamorfose ambulante a ter aquela velha opinião formada sobre tudo.
        Na real mesmo, eu acho bom essa inconstância dos nossos egos, mas hoje eu queria falar de amor. Parece que a cada dia que passa o amor morre nessa nossa geração, é cada vez mais difícil encontrar quem preze pelo clássico, pelo clichê. O amor virou démodé para a sociedade moderna. Eu não namoro por que eu estou bem sozinho, por que eu não encontrei quem valha a pena dividir minhas particularidades, aliás, eu não encontrei alguém que eu sinta vontade de dividir qualquer coisa. Eu não estou caçando aquela pessoa que vai me transbordar, até por que eu já procurei demais e achei várias pessoas erradas que me deixaram infinitas cicatrizes pelo caminho, mas eu quero encontrá-la sim, por que eu ainda acredito. Não sou mais idiota, nem me apaixono por qualquer sorriso bonito, isso não é ser descrente, uma boa dose de experiência faz bem a essa altura.
        Li uma frase da Simone de Beauvoir maravilhosa sobre o tema que diz “Renunciar ao amor parecia-me tão insensato como desinteressarmo-nos da saúde porque acreditamos na eternidade.” E de fato eu jamais renunciarei àquilo que me move.
        Há tempos não sei o que é sentir amor de verdade, criei tantas barreiras que temo de repente ter ficado imune ao sentimento quando for a hora de encontra-lo de fato. Mas tem essa uma garota (sempre tem uma), que me faz o olhar parar por aqueles segundos a mais, sabe como é? Eu nem a conheço direito. Ela é uma desconhecida praticamente, mas algo nela me seduz de tal forma que todas as minhas defesas caem, ela definitivamente desativa meu firewall por completo, e eu juro que não achei uma metáfora melhor, desculpa. Enfim, ela tem aqueles olhos profundos, cheios de mistério, cheios de “sim, vamos nos aventurar”, ousaria até citar a referência do meu livro predileto, os “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Ela também tem um sorriso perfeitamente simétrico, os lábios cheios de uma sensualidade que me parece irreal, ela sorri e as maças da bochecha ficam marcadas tão perfeitamente que a única palavra que me vem a mente é ‘fofo’ e eu morderia aquelas bochechas, com certeza. Além do mais ela tem aqueles longos cabelos morenos, que descem perfeitamente até a cintura como se ela tivesse um esboço antes de ser feita que foi apagado e refeito um milhão de vezes até que cada fio fique perfeitamente alinhado a sensualidade que esbanja aquela mulher. Faltou algo? Ah sim, o corpo, uma palavra, maravilhoso. Ela tem aquelas cinco tatuagens estratégicas que impulsionam o meu desejo a níveis tão anormais que eu fico na expectativa de que a cada uma que eu passo a conhecer passe a ser um passo em direção a um sonho. Se eu fosse descrever esteticamente a mulher perfeita, ela sairia basicamente como essa garota, só que ruiva. Mas se você me perguntar o que menos importa numa mulher certamente eu vou lhe dizer que é a cor da tinta que ela compra na farmácia pra passar no cabelo.
        Ela é tão magnifica que eu colocaria uma foto dela aqui só pra vocês todos concordarem comigo. Mas ela tem aquele ar de mulher bem resolvida, livre, que não quer saber de nada sério, que curte uma boa festa, que ama dançar até o sol nascer. E eu admiro pessoas assim. Inclusive sempre me pego pensando, quantos não devem idolatrá-la por ai, e por que eu seria diferente? A minha barba nem é tão bonita assim. A questão é que eu sempre quis ser diferente, enquanto todos chamam de linda da boca pra fora eu posso aqui imortaliza-la num texto sincero. Mas então eu penso: dizer pra uma pessoa dessas que ela é especial dessa forma em tempos como esse é como dizer “fuja de medo daqui por que eu quero te amar, casar e ter filhos”. Exageros a parte, mas bem. Então eu nunca disse, eu nunca digo. E já se passaram tantos meses, e de verdade foi uma das únicas mulheres que despertaram um interesse real em mim, não estou dizendo que me apaixonei, mas se tivesse certamente seria por ela, pois ninguém mais consegue dentro da minha cabeça ser tão magnifica assim. Por isso eu não namoro...
        Talvez ela leia, talvez ela goste, muito certamente ela desapareça, mas eu decidi escrever. Primeiro por que eu me senti obrigado a explicitar o porquê raios um cara tão “fofo e lindo que escreve poesia com o cotidiano” não namora. E segundo por que já fazem tantos meses que eu sinto que já perdi as minhas chances, então ao menos eu quero ser cordial, cavalheiro e como sempre honrar as minhas promessas como escritor e homem, escrevendo em linhas de sinceridade.
         
**Curte ai por favor, isso nos ajuda a aumentar a divulgação, obrigado!

Sobre o parenteses de um livro.





Sentiu um vibrar em seu bolso, logo sua mente encheu-se de pensamentos. Sentiu vibrar o bolso, mas o que realmente vibrava era sua cabeça, seus sentimentos, de tão profundos, faziam com que tremesse, mal conseguia acender um cigarro, a vontade de olhar para o celular era imensa. Deu uma desculpa para os amigos e foi ao banheiro, pregava o discurso (um pouco hipócrita, para ser sincero) de que não gostava que as pessoas ficassem em seus celulares enquanto mantinham uma conversa, e mesmo assim arrumou uma forma de esgueirar-se e ver seu celular. Antes de prosseguir acredito ser necessário explicar algumas coisas sobre os acontecimentos que anteciparam essa saída repentina.
Ele não esperava uma mensagem nesta noite, pelo menos não conscientemente, no inconsciente desejava a todo custo algum tipo de mensagem, ansiava por isso como um sobrevivente clama por água no deserto. Por fora, rosto sereno, um sorriso de lado, sempre esse sorriso de lado, por dentro um turbilhão de pensamentos que giravam tão rápidos quanto a velocidade da luz, distorcendo o tempo, como se pensar por horas fossem apenas minutos, mas desejar aquilo por um minuto era esperar por horas, digo que era por que a sensação do tempo é real, a angústia é real, não é como se fossem horas, são horas, na mente de uma pessoa ansiosa são horas, muitas horas. Manteve assim seu rosto sereno a noite toda, conversava com uma infinidade de pessoas, das mais detestáveis até as mais incríveis e mesmo assim estava com sua mente e corpo fora dali completamente. Inacreditavelmente sempre foi bom em manter conversas mesmo quando não tinha um pingo de interesse que seja na existência medíocre alheia, achava a existência alheia medíocre sim, mas achava a sua existência pior, menos que medíocre, era abaixo da média, sempre achou, imaginava que por isso deve ter aprendido a ser tão atento, apesar da mediocridade, toda existência ainda tem algo de incrível e único, que sempre o despertou para conversas. Manteve-se atento a noite toda, mas sem demonstrar isso, até que subitamente sentiu o vibrar, ficou ansioso e precisava sair daquele espaço, deu sua desculpa e foi para o banheiro, no caminho até o banheiro, cerca de dez metros viveu uma vida em sua mente, nem sequer tinha visto de quem era a mensagem, mas sabia que era ela, tinha toda a certeza da existência. Pensou em tudo que havia acontecido até então em sua vida, teve um daqueles clichês de filme americano, na verdade conscientemente estava negando que estava com algum tipo de sentimento romântico egoísta pela moça, mas sabia que possuía algo, não tinha certeza, aliás, certeza sempre foi algo que faltou em sua vida.
Viu a mensagem, abriu um sorriso radiante na face, obviamente. Era cedo da noite ainda, estava em um bar, com alguns amigos, cantando uma mulher ou outra, como habitualmente faz, pensava em como era engraçado, e tinha o hábito de citar para si próprio um trecho de seu livro preferido que dizia que o “amor não se manifestava pela vontade de transar com uma pessoa, mas sim pelo desejo do sono compartilhado”, repetia isso para si, e ainda falava em voz alta para si mesmo o parêntese no livro que dizia que a vontade de transar se aplicava a inúmeras mulheres, o que ele sabia muito bem, vivia isso na carne, esse desejo dilacerante, nunca negou sentir desejos, mas sempre negou sentir paixão, negava isso constantemente. Há muitas coisas no passado, no presente e no futuro que fazem com que simplesmente admitir isso seja completamente inviável na maioria das circunstâncias. Continuava a repetir essa frase em mente, mas curiosamente não repetia o segundo parêntese que dizia: “A vontade de sono compartilhado se aplica somente a uma mulher”. Enfim leu a mensagem, saiu do banheiro e no caminho estava sorridente, comprou mais uma cerveja long. deck, conversou com seus amigos e despediu-se, a mensagem dizia: “Estou em um bar do outro lado da cidade, quer vir?”. Não pensou duas vezes, nunca pensaria, sabia disso, era um rapaz impulsivo, tinha essa característica forte e adorava falar que era por que gostava de ter emoção na vida, certamente que tinha emoções, algumas muito fortes, na verdade gostava disso para se sentir vivo. Ao despedir-se foi caminhando em direção ao transporte público mais próximo, sentiu um vento frio, mas havia deixado sua casa sem blusa, na realidade não estava muito bem arrumado para a ocasião, pensou nisso enquanto subia a pequena ladeira para chegar à avenida. Pousou sua mão sobre a testa e pensou que estava horrível, geralmente não se incomodava em se sentir assim, entretanto naquele momento não poderia estar acontecendo, então virou sua cerveja, olhou em um vidro espelhado, ajeitou o cabelo, e pensou em duas ou três desculpas para estar tão feio, sentiu novamente um vento gelado então continuou a caminhar.
O caminho até o transporte foi rápido, ficou deslumbrado com as luzes da cidade, aliás, tinha um hábito de olhar para o céu, e no meio dessa cidade só via prédios, foi distraindo-se com prédios, imaginou por alguns minutos que gostaria de leva-la a um dos terraços, riu, achou aquilo besta, mas com essa distração toda chegou muito rapidamente ao seu destino. Antes de tudo, precisamos aqui abrir novamente um parêntese, ele não conhecia muito bem a cidade, se distrair nesse tipo de circunstância não era favorável para ele, mas sentia-se confiante, tão confiante que entrou no transporte errado, percebeu após alguns minutos, desceu e entrou no sentido certo, nisso havia perdido alguns minutos, e como o tempo dos corações ansiosos move diferente logo já era tarde e estava começando a se preocupar em chegar ao local para vê-la, começou a ficar realmente preocupado, tinha o hábito de preocupa-se por qualquer motivo, era ansioso, tentava concentrar-se em outras atividades no caminho, mas não adiantava, estava animado, estava bobo. Pensava que não era bobo por ninguém, mas definitivamente era bobo por essa moça, era nítido em sua fala, em sua expressão. Era como se tivesse escrito em sua testa, ainda mais no estado semiembriagado que estava. Começou a pensar em como manter a postura, sempre desconfiava das pessoas e não se abria com tanta facilidade, então sempre mantinha a postura, se abria sobre esses assuntos com alguns amigos mais íntimos, quando o fazia radiava uma boa energia, radiava uma alegria que certamente era contagiante. Recompôs-se, saiu do metrô do qual tinha entrado, estava do outro lado da cidade. Sentiu novamente o vento frio, mandou uma mensagem para ela perguntando onde estava ela enviou o endereço, seu coração disparou, ficou ansioso novamente, tremeu, sua pupilas dilataram, sentiu a energia fluir para o resto do corpo, perdera o sono que havia sido gerado pela viagem que fez nos transportes, manteve-se recomposto e seguiu até o caminho.
Andaram exatos três quarteirões, já era meia noite, seu celular estava acabando a bateria, por que diabos não o carregou antes de sair? Não sabia, nem sequer sabia que estaria ali, apesar de todo desejo move-lo para perto dela sempre. Sentiu uma gota de chuva cair em sua nuca, arrepiou-se por inteiro, parou em um ponto de ônibus para fazer uma ligação para ela, de súbito uma chuva forte começou a cair, molhou-o um pouco, mas o deixou ilhado, nesse momento sua mente ansiosa ficou preocupada, não a veria, mas estava com um desejo transbordante de toca-la, acariciar seu cabelo, abraça-la e sentir seu corpo em contato com o dela, ele sentia-se como um galão de gasolina, e via ela como a mais pura chama, um toque seria necessário para que ele inflamasse. A chuva não passava, então ele mandou uma mensagem: “Estou ilhado, a chuva me prendeu”, ela respondeu: “Nós estamos indo embora logo menos, você não consegue chegar? Aqui fecha bem cedo”. Ficou paralisado, não soube o que responder, por que definitivamente não conseguiria chegar ao local, sabia que estava perto, sentia isso, mas não conseguiria, estava molhado, mal arrumado, ilhado e sua bateria do celular estava acabando. Quando subitamente recebe uma ligação, olha em seu visor, não era um número conhecido, mas ao atender reconheceu a voz. Estava tremendo, estava com frio e nervoso, não sabia nem por onde começar, não chegaria ao local, e estava ficando um pouco frustrado com essa situação, sabia que poderia vê-la em qualquer outro dia, mas definitivamente desejava-a naquele momento em específico, reconheceu a voz, mas nos milissegundos que se passaram entre o atender ao telefone e ouvir a voz elaborou um pensamento, de como iria embora e iria arrumar uma forma de rir dessa história, da qual já estava achando graça, sempre teve um bom senso de humor, conseguiria rir fácil dessa história, foi então que ouviu: “Onde você está? Eu estou indo embora... mas gostaria de te ver”. Abriu um sorriso, disse onde estava, ela identificou o endereço, então ele sentou-se e esperou, ao menos falaria um “oi”. Definitivamente não era suficiente, não estava feliz, não estava nem um pouco contente “oi” não era sua pretensão para aquela noite, ele gostava de conversar com ela, era uma conversa que o agradava, entrava no semblante do seu ser, nas suas vivências mais íntimas, ela enfrentava os demônios mais escuros e transformava-os em risada, era uma forma única de se abrir. Nesse tempo que esteve só pensou no que estava acontecendo, admirava aquele momento, mas não sabia o que sentia, nem sequer sabia se ela sentia algo, a única coisa que sabia era a despreocupação e a sintonia que os mantinham tão próximos.
Chovia, uma chuva amarga, uma gota caiu em seu cabelo, escorreu por sua face. O tempo passou, e logo ele viu um carro vindo em sua direção, a rua estava vazia, então só podia ser ela, sentiu novamente aquele tremor de ansiedade juntamente com o frio que estava fazendo, pensou consigo que deveria mesmo ficar mais calmo. Antes mesmo de começar a formular um pensamento ela saiu do carro e veio em sua direção, deu-lhe um abraço e o carro se foi. Quando ele percebeu que o carro tinha a deixado ficou estático, não soube o que pensar, teve a mente livre, um vácuo imenso preencheu seus pensamentos, simplesmente travou e abraçou-a de novo. Ela estava rindo, ele não soube o porquê, imaginou que poderia ser pelo estado deplorável que se encontrava, mas não importava, simplesmente não conseguia acreditar que ela tinha ficado, mal conseguia se expressar, então ficou em silêncio, sentiu o peso de um fardo sair de suas costas, sentiu uma profunda melancolia atravessar-lhe o corpo, juntamente com uma felicidade eufórica, não conseguia pensar (dificilmente não conseguia pensar), eram apenas sensações, sentimentos, nenhum pensamento sequer cruzou sua mente. Os corações ansiosos tendem a distorcer o tempo, ouso dizer que esse momento durou uma eternidade, o abraço, a chuva, a roupa molhada, o frio, o cabelo bagunçado, nenhum pensamento, e um misto de sensações, sentiu o calor do corpo dela irradiando pelo seu. Uma eternidade inteira.
Os dois riram, a situação era ridícula, era boba, e por isso riram, em questão de minutos estavam completamente ensopados, ele voltou a pensar, pensou na validade de suas ações. Até alguns minutos (e uma eternidade atrás) achava que sua decisão tinha sido ruim, agora já achava que tinha sido a melhor decisão que poderia ter tomado, a vida é uma só, nunca seria possível verificar se fosse diferente, nenhuma decisão sequer é possível de ser verificada, a vida é o esboço de si próprio. Ficou contemplando-a, sabia que ela detestava isso, mas não resistia, aos mínimos detalhes do rosto, às expressões, e logo em seguida a forma como ela xingava-o por estar olhando-a em silêncio.

“Aonde iremos?” ela perguntou, e impulsivamente ele respondeu: “vamos para minha casa, está tarde, e acredito que seja uma boa possibilidade irmos para minha casa agora”. Não sabia se tinha agido bem fazendo o convite, mas o fez, o fez por que quis, o fez por que precisava, estava com tantas sensações e sentimentos em mente, que precisava ter feito isso. Ela aceitou, e então saíram na chuva em busca de uma forma de irem embora. Conversavam enquanto estavam na chuva, então repentinamente ele perguntou: “por que você decidiu ficar?”, ela sem hesitar respondeu: “por que eu quis”. Em um dia normal ele nunca se contentaria com essa pergunta, mas naquela ocasião aquela resposta fazia todo sentido, na verdade, era muito mais que suficiente, ele abriu um sorriso e logo entraram em um taxi. Chagaram a casa dele, estava feliz, estava realmente feliz, novamente não conseguia pensar, abraçou-a novamente, sentiu um desejo dilacerante de despi-la ali mesmo, conteve-se por um minuto, olhou para ela novamente, deu um sorriso que mais parecia um soluço e então a levou para o quarto. Deitou-se na cama junto a ela, olharam-se nos olhos e riram, muito, começaram a se beijar, mas não conseguiam parar de rir, foi então que de tanto rirem dormiram. Ele teve um sonho bom, acordou e confirmou que aquilo realmente tinha acontecido, olhou para ela que já estava acordada e olhava-o dormir, não conseguiu pensar novamente e repetiu para si próprio a frase do livro que mais gosta.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Às vezes.



Às vezes eu só queria conversar com alguém que não me enchesse de ideias copiadas de todos os lados e que pensasse por si só. Às vezes eu só queria poder chorar sem ter nenhuma pretensão de melhorar e que você me olhasse nos fundos dos olhos e entendesse minha dor. Às vezes eu só gostaria de deixar meu vazio sem ser preenchido por inúmeras situações que me transbordam o entender. Às vezes eu só gostaria de ficar sozinho, ler meu livro, não pensar em nada e desaparecer por um segundo. Às vezes eu queria ficar mais tempo em silêncio podendo contemplar cada momento que posso viver. Às vezes eu queria me permitir fazer loucuras que você nunca sequer imaginou que fossem acontecer. Às vezes eu queria ver 72 vezes o por do sol, sem ter que explicar para ninguém a referencia dessa citação e por que me marca de determinada forma. Às vezes eu queria ter mais segredos, e um pouco mais de histórias para serem contadas, quem sabe assim despertaria curiosidade. Às vezes eu queria entender por que as pessoas agem da forma como agem. Às vezes eu queria escrever poesias para que ninguém as leia depois, só pelo prazer de me expressar em segredos os amores que sinto em mim. Às vezes eu gostaria de chamar mais atenção, de ser mais simpático, e quem sabe de ser mais requisitado para uma conversa aleatória sobre nada em um momento oportuno qualquer. Às vezes eu queria ficar embriagado e ligar para uma pessoa qualquer (da qual eu sei que não será escolhida ao acaso, pois as afinidades sempre comandam esses momentos que estamos sem filtros sociais). Às vezes eu gostaria de ser mais importante na vida de alguém, de angariar algum tipo de mudança. Às vezes eu queria pedir um copo de vodka com 2 cubos de gelo e beber sem fazer cara feia. Às vezes eu queria não parecer bobo quanto tento impressionar alguém. Às vezes eu queria ter mais coragem de realizar as coisas que penso. Às vezes eu queria bater na porta da sua casa às 3:30 da manhã pedindo um copo de água por estar embriagado e inventar uma desculpa qualquer para ter sua companhia. Às vezes eu gostaria de perder o ponto e ir para um lugar que nunca fui. Às vezes eu queria sair para caminhar até minhas pernas doerem ou me perder e me concentrar mais nisso do que nos meus pensamentos. Às vezes eu gostaria que você lesse minha mente para que eu pudesse ficar o tempo todo só te observando sem proferir uma palavra sequer. Às vezes eu queria mais às vezes. Às vezes eu queria, mas às vezes...

***Curte ai pra gente? muito obrigado..

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Segredos de Liquidificador




- Ligue o rádio - disse ela - Ligue bem alto para que eu possa gritar o que estou sentindo.

- O rádio está quebrado - disse ele - Liguei no 220V, mas era 110V.

- Você não está entendendo!? - gritou ela - Eu preciso gritar tudo que tem aqui dentro, mas moramos nessa kit net tão pequena que se eu fizer isso, todos vão saber.

- E qual o problema das pessoas saberem de seus sentimentos? Às vezes nossos mais profundos segredos são partilhados pelas pessoas à nossa volta, e ficamos sofrendo à toa tentando escondê-los - estranhou ele, ainda não entendendo o que ela queria dizer.

- Pare de enrolação e ligue qualquer coisa aí que faça barulho - disse ela com cara de raiva, franzindo o lábio como só ela fazia quando estava impaciente.

Ele deu um sorriso de canto de boca.

- Você é maluca - disse ele - Não há nada aqui que faça barulho, nada que possa mexer com nossa rotina e com nossos corações. Tudo está no seu lugar.

Ela desesperou-se. 

Ligou o microondas, mas o "vruuuuuum" não era alto o bastante para que ela enchesse os pulmões e gritasse, sem que ninguém pudesse ouví-la. 

Ligou a TV no volume mais alto, mas ainda assim estava baixo demais.

O que ela tinha a dizer era especial demais, precisava de algo que fizesse um barulhão, assim poderia gritar sem que ninguém pudesse ouvir.

Gritar para ninguém ouvir. Fazemos isso com mais frequência do que deveríamos.

Ela desligou a TV, aquela receita de bolo de cenoura da Ana Maria Braga estava dando fome.

Tentou ligar o rádio de novo.

Ligou o secador de cabelos (daqueles com nano íons de prata - ou sei lá o quê que eles inventaram um nome para vender mais).

Ligou o chuveiro, porém ele não fez barulho nos decibéis que ela desejava (além disso, acabou molhando a roupa com a explosão de água).

Ele riu vendo seu desespero. O que teria ela para dizer - gritar - sem que ninguém ouvisse?

Ele aproximou-se do liquidificador e ligou-o. Ela abriu um sorriso de orelha a orelha, chegou perto dele e tascou-lhe um beijo na boca. E não era beijinho, era beijão. De língua mesmo, pode acreditar. Demoraram-se, mas quando finalmente acabaram ela gritou.

Gritou sei lá o quê, pois o liquidificador era alto demais e ele não pôde ouvir. Ela tentou gritar de novo, mas ele não conseguia entender. Na terceira tentativa, ele desligou o liquidificador, mas ela não percebeu.

Encheu os pulmões e gritou o mais alto que pôde, em alto e bom som:

- EU TE AMO!!!!!!!!!!!!

Ela ficou vermelha e ele mais vermelho ainda. De todas as kitnets ao redor as pessoas gritaram e bateram palmas. O som voou pelos ares e atingiu os prédios vizinhos, alavancando uma enxurrada de palmas e gritos de todo o bairro.

Ela ficou vermelha de raiva, e ele de felicidade.

Ela ia gritar de novo (desse vez para xingá-lo), porém ele chegou perto, agarrou-lhe os cabelos ruivos e deu-lhe um beijo na boca, ainda mais quente que o primeiro.

- EU TE AMO TAMBÉM!!!!!!!! - gritou ele, ainda mais alto.

As palmas voltaram e o bairro inteiro aplaudiu. Ela sorriu lindamente e disse:

- É, você tem razão, o amor não deve mesmo ser escondido debaixo de um turbilhão.




Eterno Retorno






            Tive que começar a escrever esse texto por que são duas horas da madrugada e eu não consigo dormir de forma alguma. Estou há meses fingindo que estou sendo sincero sobre o que eu escrevo, mas é uma mentira que eu conto para mim mesmo repetidamente todos os dias quando acordo. O peito está pesado, o passado está me puxando de volta e o futuro parece tão incerto e inconsistente que chega a me dar calafrios de medo. Eu estou tão cansado do estereótipo feliz que sou obrigado a sustentar em prol dos outros, de ter que sorrir sem vontade, de ter que se sentir privilegiado sem poder achar defeitos. Estou cansado, cansado de não poder ter meus fantasmas, meus medos e minhas inseguranças. Estou cansado de não poder ser frágil, de ter que esconder tudo dentro de mim por causa do medo das pessoas que me rodeiam de achar que eu vou entrar em colapso, que eu vou cometer suicídio, que eu vou praticar um homicídio, que eu vou cair em depressão profunda.

            A noticia para essas pessoas é que eu já estou colapsado e em depressão há meses. Tenho que ser um ótimo ator com essa minha eminencia natural de estar constantemente em estado depressivo. E é impressionante como isso machuca minha vida, minha autoestima. Incrível como meu particular pessoal-amoroso tem tanto poder sobre quem eu sou, sobre a intensidade dos sorrisos que eu dou sábado a noite. E mesmo sabendo que a felicidade jamais estará em outra pessoa além de mim mesmo, eu deito a noite olhando para o céu e me pergunto onde estará ela, olhando para o mesmo céu talvez, mas tão distante dali.

            Me lembro que há seis meses atrás escrevi um texto dizendo que jamais voltaria a escrever sobre você, pois bem, eu menti. Me surpreendi depois de todo esse tempo em perceber que nada mais que sai de mim é totalmente sincero, tive essa revelação hoje lembrando de você, em como a gente brincou com o destino e se machucou feio. Preciso ser sincero de novo, falar sobre você, sobre como você me fez desacreditar no amor desde que você partiu daqui. Tem sido difícil, cada dia, as noites se arrastam, mas nada parece me alegrar de verdade. Eu saí com tantas pessoas, beijei algumas pessoas maravilhosas, pessoas inteligentes. Passei domingos vendo filmes de casalzinho com mulheres carinhosas, passei sábados malucos em festas regadas a drogas e álcool curtindo a vida como um maluco suicida, beijei paixões platônicas de anos atrás em shows das minhas bandas favoritas ao som das minhas musicas prediletas. Mas mesmo assim nada preenche aquele vazio que você deixou quando foi embora.

            Tenho a sensação que nunca vou encontrar alguém como você, que transborde a minha existência com um simples olhar. Eu já tive infinitos casos e acasos da vida, já cai e levantei de sete relacionamentos sérios totalmente distintos, já entrei em depressão por amor (não na forma poética, na forma psicológica mesmo, e física, até mental) e mesmo com toda a bagagem eu digo que nada foi igual a você. A gente teve um nada, uma paixão rápida e destruidora, você nem chegou a entrar na minha vida, mas o estragado foi nuclear. Me lembro de ter atravessado a cidade em busca de presentes que poderiam caber na sua cesta de pascoa, e um deles foi aquele cachorro de pelúcia fofinho que eu apelidei com o seu sobrenome, pois ele seria seu filho a partir de então. Lembro de ter escrito uma carta onde na verdade o escritor era o cachorro, Billy Ribeiro,  que dizia que queria adotá-la como dona e tudo mais. Lembro de ter saído correndo de Guaratinguetá a São José dos Campos para te entregar essa cesta na pascoa antes de você viajar para Minas, e com a pressa esqueci os chocolates em Guará e fiz uma via sacra em São José montando a cesta inteira de novo. Lembro que cheguei em casa desesperado “Mãe, me empresta o carro agora! É urgente!” e sair alucinado para ter aqueles infinitos dez minutos com você. Lembro do seu rosto feliz, de ver sua cara de quem não sabia mais qual era a sensação de ser tão amada assim. Mas lembro principalmente de você se negando a ficar com o Billy, pois você não podia entrar em casa com uma pelúcia, sua mãe poderia ver, seu namorado poderia descobrir. Nosso sonho era o impossível que eu faria de tudo para se tornar real. Você deixou comigo o Billy, e nunca mais veio buscá-lo, e mesmo depois de sumir da minha vida eu fiquei encarando ele em cima do meu guarda roupa pegando poeira, e era triste, muito triste. Por sorte minha melhor amiga também tinha o sobrenome Ribeiro, e eu dei o Billy de aniversário para ela, está em boas mãos agora.

            Ter perdido você me matou lentamente durante todos esses meses. Saber que eu usei tudo de mim por você. Fiz as loucuras que te deixavam desacreditada de que podiam ser reais. Fiz todo amor que você conhecia parecer uma velha lembrança de afeto. Eu usei toda minha experiência, todo meu aprendizado, todo meu cavalheirismo e amor para te fazer acreditar que era comigo que você deveria estar passando todos os dias da sua vida até a eternidade. Mas mesmo assim eu perdi, e eu sei que eu era melhor que ele, eu sei que minhas serenatas te acalmavam a alma, eu sei que só eu ficaria do teu lado nos conflitos que você tinha com a sua mãe e eu sei até que o sexo era melhor do que todos seus três anos de namoro. E eu sei não por que eu sou soberbo e me acho pra caralho, mas por que você me falou. Lembra? Ainda ecoa na minha cabeça quando você dizia que eu era o cara mais perfeito que podia existir. Que ninguém era capaz de fazer as coisas que eu fazia por você, que era um sonho, que eu era a única coisa que te fazia sorrir quando a sua vida parecia um pesadelo. Mas mesmo assim você foi embora, você ficou com ele, no final o amor apontou para outro lado, e mesmo que não faça sentido algum, eu entendo, eu entendo por que eu sei que o amor não mede o próprio amor, ele é adimensional, improvável e indecifrável, e mesmo que ele seja um babaca você possivelmente passara a vida ao lado dele.

            Espero que você seja feliz, mesmo tendo me destruído, me humilhado, me deixado para trás da maneira mais covarde possível, de ter me enganado, me usado, me torturado e pisado no meu coração. Eu espero que você possa sorrir todos os dias. São seis meses e eu ainda tenho lampejos sobre você, não sei por onde você anda, não temos amigos em comum, fomos bloqueados de todas as formas de comunicações possíveis, eu realmente vivi sem você todo esse tempo, mas nada mais parece ser sincero, e eu precisava me abrir, por que eu ainda sinto que você vai aparecer na porta da minha casa daqui cinco anos dizendo que fez a maior cagada da sua vida. E eu já me estapeio sabendo que eu não vou ser capaz de mandar você a merda e nunca mais voltar até mim, por que você foi única, e eu espero que eu esteja errado, por que eu não quero viver a vida sabendo que nunca mais vou encontrar alguém que me dê o que você me deu, sabendo que o amor que mais me cativou foi o que mais me destruiu.


***Gostou? curte ai, deixe um comentário e compartilhe pra ajudar  a divulgar a página. Obrigado.


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O (a)mar

                                 

Eu preciso ir embora. Não posso continuar.
O meu barco estava ancorado e agora as tuas palavras me obrigam a partir deste lugar tão familiar e assustador ao mesmo tempo.
Hoje eu pulei do barco e aquelas nossas canções me engoliram como ondas destemidas
Eu prometi a mim mesma que não permitiria mais me afogar nessa tempestade de conflitos que há dentro dos teus olhos profundos.
Profundos como o amar ainda presente nas minhas terras desertas; nas minhas terras interditadas.
Eu desaprendi a nadar, acredite!
E as gotas das tuas águas não se envergonham ou empalidecem ao invadir e deixar os meus olhos marejados.
Eu, que antes era o teu próprio cais, hoje sou apenas uma simples folha que nada sozinha procurando por abrigo e fugindo desse caos.
Esse mar não cabe dentro de mim e transborda destruindo toda essa cidade de papel.
Ele é tão intenso que eu já nem sei mais se uso as metáforas ou sou usada por elas ao ousar em nadar dentro dessas águas tão turvas, tão tuas.
Acredito que nesse momento as metáforas me  escrevem
e esse mar se constitui apenas como o meu eu poluído
que ainda teima em habitar um ser vivo,
Você!

Amanda Cavalcanti

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Por que não eu?


Trilha: Adele - Someone Like you
https://www.youtube.com/watch?v=hLQl3WQQoQ0


            As chaves estavam em cima do criado-mudo, e as janelas abertas deixavam soar a sinfonia da brisa que cruzava o apartamento vazio. A Tv ligada bem baixinho cochichava um coro ao fundo, junto com o som das lágrimas pesadas que caíam ao chão do meu quarto. Cada gota parecia que iria derrubar o prédio, ou ao menos furaria o chão em um buraco grande o suficiente para eu me enterrar e não sair mais dali. Você me olhava estática, sem saber o que fazer, mas no fundo estava mais certa do que nunca.

            E eu lembro que só eu conseguia tirar seu sorriso com as minhas piadas bobas no happy hour de sexta à noite. Só eu te acordava 6:59, antes do despertador tocar com uma mensagem de bom dia. Só eu olhava para você quando saia de casa e elogiava a sua blusinha combinando com seu brinco novo. Só eu me divertia um sábado inteiro fazendo compras no shopping com você, só eu era feliz em ser seu estilista particular. Eu me recordo que só eu tinha o dom de levantar sua cabeça quando cabisbaixa e te beijar do nada sabendo que você precisava de uma força. Só eu entendia seus problemas com sua mãe e te apoiava em cada decisão louca que você tomava, mesmo quando viesse a se arrepender completamente.

            Eu chorava cada lágrima ali, sentado na beira da minha cama, olhando para você por que eu estava certo de que só eu sabia temperar a sua salada do jeito que você gostava, só eu conseguia cantar para você a noite, enquanto você deitada no peito tentava dormir depois de um dia difícil, só eu sabia fazer aquele cafuné que te dava calafrios e te fazia encolher toda debaixo do edredom. Só eu sabia escolher um bom filme e fazer uma excelente pipoca com manteiga de micro-ondas para curtimos um sábado a noite chuvoso. Era triste pensar que apenas eu era capaz de apertar você forte num abraço, estralando suas costas e te rodando no ar todo dia quando te encontrava. Só eu repetia dez vezes numa mesma noite quão linda você estava, segurando seu rosto e beijando a sua testa. Só eu podia te proteger e te fazer sentir segura quando você tinha medo e achava que o mundo inteiro estava desabando ao seu redor.

            Eu balançava a cabeça em negação, sem poder acreditar, por que eu sabia que só em mim você podia confiar para ligar as três da madrugada dizendo que queria largar seu emprego. Só eu dizia a você que tudo ia ficar bem quando você perdeu de fato o emprego. Só eu passaria dias em claro te ajudando a estudar para passar em um bom vestibular, só eu passaria horas com enorme paciência te ensinando a tocar violão. Apenas eu saberia pelo seu humor em qual fast food você gostaria de comer na infindável praça de alimentação do shopping. Me desesperava em perceber que só eu te abraçaria quando você tivesse pesadelos a noite. Só eu colocaria meu pé no seu pé gelado debaixo do edredom para te esquentar nas madrugadas frias.

            Eu tentava me desvincular de tudo isso, mas as memórias não paravam de subir a tona e me lembrar de que só eu fui capaz de te comprar rosas no dia das mulheres, de te dar vários chocolates quando você dizia que precisava parar de comer besteiras, e eu dizia que você sempre seria perfeita. Só eu diria com sinceridade o quão gostosa você era mesmo que você se achasse magrela e estivesse complexada com seu peso, só eu seria feliz com você mesmo com todos os seus defeitos e qualidades, pois era exatamente assim que eu sempre te amaria. Só eu passearia o dedo pelas suas tatuagens como se estivesse redesenhando elas, só eu te faria cosquinhas quando você estivesse brava comigo dizendo que iria me matar. Só eu bagunçaria seu cabelo e diria que agora sim você está muito mais linda e sensual. Só eu toparia as sacanagens mais loucas que nós temos em comum. Só eu, e apenas eu, escreveria esses textos enormes dizendo para o mundo inteiro o quão você era importante no meu mundo.


            E você abaixou a cabeça desviando o olhar, por que você não esperava que eu tivesse uma resposta tão boa, ainda mais uma que fosse tão verdadeira. E então suas lágrimas também tocaram o chão do meu quarto, e mesmo assim você me deu aquele olhar frio, e eu já sabia como seria, por que só eu te conhecia tão bem e melhor do que você mesma. E mesmo que você jamais tenha dito eu sabia que existia um outro alguém, e você antes de sair disse “me desculpe”, e pegou as chaves em cima do criado mudo. Antes de sair, como de costume, fechou as janelas e desligou a Tv. Eu nunca mais te veria, o silencio gritava no vazio do meu apartamento, me recusei a acreditar e liguei a Tv, abri as janelas e joguei minhas chaves no criado mudo. Deitei mais uma vez na cama e fechei os olhos, e depois de muito pensar descobri enfim algo que eu não era capaz de saber sobre você...

              Entender o porquê você jogou tudo fora quando tudo o que eu mais queria era paz... Talvez um cachorro, uns dois filhos e uma família ao seu lado.


***Gostou? Curte ai :)

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Bruna



Antônio nasceu no sertão de Piritiba aonde a água não chegava
Vivia e se afogava no sol e na comida que faltava
Pelo trabalho com a enxada, forçado foi a trocar tudo o que sonhava.
De Jenipapo a macaxeira, cajá, e três pés de guataíba desfrutava.
Tinha um fiel amigo, Tomás, que por nada não o abandonava.
Antônio não folgava sua angústia de natureza escrava,
E da vida não esperava, cabisbaixo apenas caminhava.
Pai e mãe eram um eterno fardo que o abalava
E quando criou coragem, percebeu que na estrada já estava.
Abandou tudo que tinha por aquilo que acreditava
Julgou que nada que tinha até então amava
Foi até a cidade grande, um sonho ele buscava.

Chegou cansado, mas impressionado e com um sorriso pueril.
Não demorou muito para desvendar um ambiente inteiramente hostil
Logo não havia mais significado palavras como bondade.
E na selva de pedra traçou seu futuro com muita dificuldade.
Em centelhas de prosperidade chegou àquela carta de má caligrafia.
Sua mãe há alguns anos esquecida, falecia e se despedia.
Antônio era orgulhoso e se recusou a olhar para trás
Havia tomado à decisão e nem sua família lhe interessava mais.
Lutou com aquilo por um ou dois anos até seu pai partir
Algo dentro dele se perdia, mas ele não iria se permitir.
Tomás assistia ao amigo e sempre dizia “pobre rapaz esse Antônio”
E não demorou muito até resgatar na memória toda sua adolescência
Em poucos dias entrou em completa e irreversível abstinência

O que merece alguém que não está presente no enterro dos próprios pais?
Culpava-se e sentia que poderia ter sido alguém melhor e feito muito mais
Trancou-se dentro de si mesmo e perdeu a saúde e o brilho e muito mais além
Tinha pesadelos a noite do dia em que morreria e em seu funeral não haveria ninguém.
Parecia que a vida não fazia mais sentido, nem se tivesse uma imensa fortuna.
E foi então, que depois de muitas lágrimas de desespero conheceu Bruna.

A prepotência dentro dele foi paulatinamente apagada
E de repente o amor em Antônio fez morada.
A moça de sorriso jovial desfilava como sua namorada
E até quem o via na rua sabia que havia encontrado ela
Era um amor de abrir sorrisos, horizontes, portas e janelas.
Falando em portas, ela vestia um lindo vestido de casamento.
Lagrimas apareceram nos olhos de Tomás naquele momento.
E falando em janelas, alugaram um apartamento com uma bela vista.
Eram pobres, mas eram felizes, não havia mais desejos em sua lista.
E falando em horizonte, alguns anos passaram como de casual.
E entrava a moça pela porta com a notícia de um câncer terminal.

Falando em sorrisos, eles foram perdendo nos rostos comprimento.
E do impossível Antônio faria por mais algum ínfimo tempo.
E de verdade, nada descreve a dor da partida e todo esse sofrimento.
Quando Bruna se foi o lamento, o último depoimento e o seguimento.
O seguimento de algo que parecia não haver fundamento.
Tomás dizia “pobre rapaz esse Antônio, perdeu tudo que tinha.”
É assim que a vida se perdeu de novo, e assim que ela caminha.
Algo se fechou naquele coração e mesmo assim continuou a jornada.
Antônio faleceu muitos anos depois na sua humilde e precária casa.
Era madrugada, os galos cantavam e uma vida não existia mais ali.
Tomás dizia “pobre rapaz esse Antônio, viveu dores incalculáveis por aqui.”
Mas estava errado, o sorriso desfilava no rosto de Antônio em seu funeral.
Morrera sorrindo e incrivelmente feliz por saber que havia vivenciado
Testemunhado e acreditado em uma história pura de amor.
Foi predestinado, e fazia dele um indivíduo melhor, um alguém.
Um alguém que mesmo com seus erros não era uma má pessoa ou um vagabundo.
E a prova disso se levantava ao fundo do salão e o cruzava naquele segundo.
O jovem debruçou-se no caixão e com um sorriso em lágrimas disse.

“Foi o melhor pai do mundo”

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A Ruiva



"Soulstripper - A Ruiva"

( http://www.youtube.com/watch?v=MUifGCXuLNY )


            Camiseta polo vermelha, calça jeans rasgada, um Adidas branco no pé e uma barba por fazer. Entrou pela porta do bar naquela sexta feira a noite como uma rotina banal que esperava seguir religiosamente até o último dia da sua vida. Pediu uma Heineken bem gelada e ficou ali apreciando o ambiente. O Mcgee’s era um bem pacato e minúsculo PUB no centro da cidade, estava parcialmente cheio, meia luz, Led Zeppelin IV ao fundo e cheiro de Philly Cheesesteak no ar. Nessa varredura visual corriqueira ele esbarrou o olhar em uma garota que se sentava sozinha em uma das mesas do bar. “De novo você?” pensou suspirando.
            Na mesa uma linda mulher, com os olhos verdes cheios de mistério, cabelos longos cor de fogo, intensificados pela iluminação do bar, e um vestido básico, preto, cheio de sensualidade encaixado perfeitamente no corpo daquela desconhecida. Ela era realmente bonita e ele já a havia visto uma dezena de vezes naquele mesmo lugar. Era sempre igual, a beleza intimida as pessoas, mas hoje seria diferente, era uma confiança misteriosa agindo dentro do rapaz, ou simplesmente a conformidade de que não tinha mais nada a perder na sua vida social fracassada. Levantou o copo como quem faz um brinde. A moça viu o gesto, ficou observando, e só quando ele abriu um sorriso amigável ela sorriu e levantou também seu copo, fazendo com que ele se aproximasse, enfim.
            A conversa foi rolando de uma naturalidade não muito comum ao que ele estava acostumado, assim a noite caiu em instantes e ele se despediu da ruiva. Por um momento encarou seu decote tão involuntariamente que quase foi embora correndo com medo dela ter notado, o que ele não sabia é que ela havia realmente notado e havia dado risada da situação, achou uma graça a timidez do rapaz. E aquelas conversas se repetiram algumas vezes, quando nessa última semana do mês de setembro ele se despediu mais uma vez da linda mulher e notou no caminho de volta que havia perdido as chaves de casa. Voltou para o bar.
            Quando entrou pela porta a ruiva ainda estava lá, só que não mais sozinha. Um homem sentava onde antes ele havia se acomodado, e ambos riam de forma muito intima, ou ao menos era o que ele enxergava da situação. Sem alardes achou sua chave e foi embora sem se incomodar com a circunstância. Dormiu pensativo, estava prestes a perder não só a garota, mas a oportunidade de provar para si mesmo que toda aquela timidez era deveras um fardo a ser deixado para trás. Acordou determinado.
            Sentado ali ele ria de tudo e contava histórias que entretinham muito a moça dos cabelos vermelhos, ele sabia que naquela noite deveria tomar uma atitude, um convite, um beijo, uma proposta qualquer, uma aventura. Estava irredutível a esses pensamentos até que, por um instante, desviou o olhar do sorriso magnifico que tinha aquela mulher (era hipnotizante de uma forma assustadora) e viu na mesa detrás um cara tomando um café. Ele travou instantaneamente, era o cara do dia anterior, estava tão perto da sua mesa que era capaz de estar ouvindo cada palavra da conversa, ficou sem saber como agir, de repente toda a timidez voltou. Não conseguiu se concentrar e foi embora mais uma vez, só que dessa vez ficou observando do lado de fora do bar e registrou o momento em que o homem então se levantou e foi se sentar com a ruiva. Sentiu-se traído, se sentiu um tolo por um instante. Uma raiva momentânea se apossou dele e passou logo em seguida. “Quantas vezes será que aquilo já havia se repetido?” refletia ele aflito. Foi para casa mais uma vez, precisava pensar.
            Não demorou muito para o simples fato da ameaça de perder a garota para outro cara começasse a paulatinamente esmurrar fatos e verdades na cara do rapaz. Estava disposto, mais uma vez, a ganhar aquele jogo perigoso de sedução. Arrumou-se impecavelmente aquele sábado à noite, passou quase uma hora em frente ao espelho ajeitando seu cabelo, sabia que ela estaria lá, ela sempre estava, ele implorava que ela estivesse lá por essa última vez.
            Entrou no bar, e pra surpresa dele ela estava lá, linda como sempre, sentada na mesma mesa, com o mesmo copo de cerveja na mão, o sorriso intacto reluzia um brilho único e encantador que infelizmente lhe dava náuseas naquela noite em específico, pois o cara do seu pesadelo também estava lá, só que agora já sentado à mesa com a ruiva. Ele ficou ali imóvel, encostado no balcão, aguardando algum sinal, buscando uma saída praquele pesadelo. O cara olhou da mesa e deu um sorriso sarcástico, o bastardo sabia que estava sendo um completo filho da puta, e continuou ali conversando com a ruiva, até que se levantou, pegou a garota pela mão e a levou embora. O rapaz continuou encostado no balcão sem reação, não podia fazer nada, sabia que a culpa era dele, havia estragado tudo de novo, pediu outra cerveja.
            Eu particularmente senti um pouco de dó sim, mas não sei bem dizer, talvez seja esse negócio meu de ser seduzido por desafios, quando é mais difícil parece tão mais gostoso, ou talvez eu só seja mais um filho da puta no mundo. De qualquer forma essa ruiva é até mais maravilhosa agora deitada na minha cama, sem roupa, envolvida no meu lençol, perdida em algum sonho longe da minha realidade. Ah como o tempo voa.
            “O que você tá fazendo ai no computador?”
            “Um novo texto sobre a vida, nada de mais.”
Ela sorriu encantadoramente e o cheiro de café já está tomando conta da casa.
Bom, me desculpe, mas tenho que voltar para cama, é domingo.

Com licença.

***Gostou? Então curta aqui embaixo e ajuda a engrandecer o blog. Muito obrigado e volte sempre!!!

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Uma noite no inferno.






Logo pela manhã já tinha acordada decidida: iria transar aquela noite, sem pudores, sem rodeios e sem mais delongas. E era claro que conseguiria, aliás, suas curtidas no facebook, seus aplicativos de relacionamentos não eram um engano, ela era realmente era uma mulher sensacional, era sedutora ao extremo, usava roupas provocantes, sabia dizer apenas com um olhar o que desejava, ela sabia que por onde passava destruía todos os corações que tocava, muitos eram os homens aos seus pés e ela se sentia extremamente confortável com isso. Era o centro das atenções por onde passava, priorizava seu prazer, além de qualquer outra coisa que encontrava pelo caminho, não tinha o hábito de se importar com ninguém além de poucos amigos, muitos homens que, não esperança de ter uma boa noite de sexo, eram muito complacentes com o que fazia. Era deslumbrante, aos olhos mais atentos possuía poucos defeitos, que ela disfarçava muito bem com uma ótima conversa, extremamente superficial, porém muito convincente, afinal, não importava o conteúdo, pois não confiava em ninguém, não se abria nunca, se fechava em uma concha, que era coberta por sua beleza, o que no fim gerava uma mulher que conseguia sempre o que queria independente dos meios. Enfim, ela acordou pensando que iria transar aquela noite, escolheria o parceiro, levaria para a república onde mora e transaria. Apenas isso. Como sempre fizera antes.
Passou um dia normal, leu seus livros, adorava literatura russa, ficou deitada em sua cama de pijama, pensou boa parte do dia, se engana quem acha que ela pensou no que faria de noite, pensou em seu trabalho, pensou no que acabara de ler, pensou em si, fazia isso com relativa frequência, gostava de sentir a dor de pensar em si, uma dor que só ela conhecia, uma dor que ninguém sequer chegava perto de compreender. Nunca em vida pensara em como conseguiria as coisas, simplesmente pelo fato de que ela sempre conseguia, de uma forma ou de outra. Olhou seu celular, viu inúmeras mensagens de infinitos pretendentes, leu cada uma das mensagens, respondeu apenas dois dos homens, antes de tudo, vale aqui uma explicação de por que ela fez isso. Não os conhecia bem, estava sondando possibilidades, então ela simplesmente adorava flertar livremente com essas pessoas, respondia-as quando convinha, mas nunca deixando um espaço de tempo suficiente para que sumissem e, era claro, eles não sumiriam. O primeiro que respondeu era um homem bobo, era bonito, bem bonito, porém dotado de uma superficialidade atípica, o que irritava ela profundamente, mas sempre que se lembrava de sua beleza pensava que por aquilo valeria a pena, afinal não queria um casamento, apenas sexo. O segundo homem era ainda mais tolo, em um nível que chagava a causar desprezo, era romântico, um idealizador, usava um óculos que era charmoso, tinha uma ótima conversa, mas era um romântico, esse romantismo era paradoxal para ela, ela gostava, afinal, não se nutria somente de sexo, gostava de algumas doses de carinho, alguém que pudesse falar-lhe boas palavras, aquele tipo de conversa aonde o ego de qualquer mulher vai ao espaço, ao mesmo tempo sentia tudo aquilo tão falso, pensava sempre no fato de que ele apenas queria uma bela noite de sexo, mas nem sequer admitia isso, por isso o desprezava tanto, por isso falaria para ele o que fala para todos: “Tome mais um copo antes que eu quebre seu coração”. Ela tinha esse lema, levava isso como um dogma, bizarramente, vivia com essa frase se repetindo inúmeras vezes em sua mente, e agia propositalmente para quebrar alguns corações (vale ressaltar que esse movimento não começou do nada, ela já teve seus momentos, mas pensou bem sobre isso, viveu o suficiente para perceber que nada no mundo poderia lhe ferir, mantinha a boa cara, mas no fundo, tinha suas dores), tinha um prazer nisso, em transformar essas pessoas em corações secos, afinal, considerava bobo esse tipo de relação com as pessoas.
Tirou seu pijama e ficou nua em casa, estava sozinha e foi se olhar no espelho, viu-se, analisou cada curva de seu corpo, virou, olhou as costas, tinha uma bela tatuagem, era grande, e nem um pouco discreta. Ergueu o cabelo, fez uma pose sexy, pensou consigo - se meu corpo irá definhar um dia, o usarei como bem entender – se sentiu livre, pensando sobre suas possibilidades de existência, lembrou-se de um pequeno amor que tivera alguns anos atrás, deu uma risada, abriu a boca e olhou por dentro, ainda tinha a cicatriz no lado interno da bochecha. Vendo aquilo riu novamente, se jogou na cama nua, e adormeceu caída como um saco dormiu um sono pesado, e teve um sonho (sonhou com um rapaz, que parecia um menino, era um rapaz forte, porem delicado, tinha uma sensibilidade fora do comum, ela saia com esse rapaz, eles dormiam juntos, e quando ele estava prestes a cair de sua cama, ela puxava-o de volta, colocava-o contra a parede e dizia: Nunca vou te deixar cair. Esse sonho era muito significativo, ela nunca fizera uma analise do que sonhara, acordava e fazia questão de esquecer tudo, nenhum desejo que não fosse consciente viria à tona dessa forma, então lacrou essa vivencia).
Acordou e já estava escuro fora de seu apartamento. Olhou seu quarto novamente, e sentiu um imenso vazio, não estava contente com essa situação, vestiu uma roupa qualquer, abriu uma cerveja, respirou fundo quatro vezes enquanto olhava um quadro de uma flor. Fez esse movimento por mais alguns minutos e decidiu que era hora de se arrumar. Não vou perder tempo dizendo exatamente o que ela fez ao se arrumar, só é válido ressaltar que, como sempre, estava espetacular, estava deslumbrante aos olhos de qualquer pessoa que a visse. Foi então que saiu de casa.
Seguiu para a boate de sempre, não que fosse a que ela sempre ia, mas era um dos poucos lugares na cidade onde sabia que encontraria alguém interessante, e com um pensamento constante no que gostaria de fazer seguiu seu caminho. Chamou uma ou outra amiga para juntar-se a ela na boate, e ao chegar lá deu de cara com Ana. Uma rápida explicação de quem é Ana. Ana era uma das poucas pessoas que a conhecia bem, mas não eram bem amigas, eram mais rivais, ou qualquer coisa do gênero. Fingiam se aturar, gostavam de estar no mesmo local, gostavam de competir, gostavam de ser o centro das atenções, gostavam de se beijar e provocar as pessoas ao redor, Ana era uma pessoa mais complexa que ela, conseguia o que queria das formas estranhas possíveis, mentia, adorava mentir, Ana tinha o hábito de dizer que era criativa por isso mentia. Enfim, Ana era Ana e nossa personagem não estava feliz em vê-la aquela noite. Por sorte ao chegar viu Ana conversando com um rapaz, que era relativamente bonito e ela parecia bastante distraída com ele, então passou por ela sem cumprimenta-la e foi comprar algo com álcool, não precisou gastar dinheiro, ficou exatos três minutos no bar e alguém se ofereceu para pagar-lhe algo. Pediu algo forte, não queria voltar ao bar tão cedo. Aceitou uma conversa com o ser que lhe pagou uma bebida, mas não estava com vontade de conversar, então tratou de corta-lo como uma foice ceifando uma alma. Foi para área de fumantes, era um local mal iluminado, a pintura na parede era de cor vinho com algumas pichações, e escorado na parede perto do canto direito ela viu um rapaz. Era estranho, sei que estranho não é uma boa explicação, mas tendo em vista o que ela pensou sobre como ele era estranho essa é uma ótima palavra para descrevê-lo. Era magro, usava uma camisa xadrez (a cor era escura, mas por conta a má iluminação ela não conseguiu identificar direito, mas era algo que variava entre preto e azul escuro), suas roupas eram bem justas, tinha um sorriso belo, meio torto, os olhos eram fundos e em sua face havia uma expressão de profundidade misturada com ternura. Ele olhou para ela, tinha percebido que ela estava observando-o, deu uma risada como quem diz: “Te peguei”. Ele acendeu seu cigarro, e ficou parado em seu lugar. Ela se sentiu desafiada, dificilmente algum homem não teria ido conversar com ela depois dessa cena, e ele simplesmente acendeu seu cigarro. Então ela continuou a olha-lo, ele, como em um reflexo, mexeu sua cabeça com o movimento de quem diz: “E aí? Qual é a tua?” Então ela tirou um cigarro de sua bolsa e partiu em direção a ele. Ela pediu o isqueiro, como a cantada mais óbvia possível, esperando que ele fizesse algo, mas ele não fez, apenas entregou-lhe o isqueiro e continuou com sua cara de reflexão e ternura. Então ela puxou algum assunto, para sua surpresa fez isso, não tinha o hábito, nem sequer achava necessário. Ele entrou em sua conversa, conversaram muito, e por muito tempo, mostrando interesse simultaneamente, porém mantendo uma distância saudável e uma cara de nada. Ele estava interessado nela, e obviamente ela ganhou isso, mas não tinha a menor ideia do por que se interessara por ele, ele era algo bem próximo do normal, alguém que não parecia diferente, ao mesmo tempo em que parecia ser diferente.
Conversa vai, conversa vem, estavam cada vez mais interessados, cada um com seus desejos, ela sabia o que queria e ele parecia suficiente para isso, foi então e como um soluço uma lapso saiu de sua boca: “Tome mais um copo antes que eu quebre seu coração”. Ele ficou com uma cara de dúvida e para confirmar fez uma expressão de quem não havia entendido, ela desconversou e continuaram a conversar. Então ele propôs que deveria ir a outro lugar, ela aceitou, mas sem antes perguntar, só para aumentar seu ego, o que ele tinha em mente. E ele sem nenhum escrúpulo, como se fosse um “bom dia” respondeu: “Eu pretendo transar loucamente com você”. Ela riu histericamente da fala dele, adorava uma sinceridade, por mais vulgar e besta que fosse ambos estavam alcoolizados o que deixou o comentário muito mais espontâneo. Saíram da boate aos beijos e ela quis leva-lo para sua casa, ele aceitou.

Tiveram uma ótima noite, memorável. Ao acordar, ela se sentiu ótima, feliz, sentiu algo diferente, teve vontade de abraça-lo, pensou que aquele rapaz estranho, magro e excêntrico tinha sido uma pessoa diferente desde o começo, não caindo totalmente em seus jogos, mantendo seus segredos, chegou e pensar que estava apaixonada, uma paixão de uma noite. Virou-se para abraça-lo e ele não estava mais lá, porém havia um bilhete: “Tomei a liberdade de fazer um café, por que sou folgado...” Ela abriu um sorriso imenso no rosto e seu coração bateu mais forte, então continuou a ler o bilhete: “... tome um copo antes que eu quebre seu coração”. Seu coração parou, arregalou os olhos, sentiu-se preenchida por uma escuridão. Súbito aquilo a desestabilizou, pensou em gritar, ficou com raiva, sentiu-se enganada. Abriu um sorriso de canto e pensou: “Que filho da puta!”. Nunca mais o viu.