terça-feira, 4 de outubro de 2016

Estrelas





Lá de cima me via estatelar-se ao chão, e com o som opaco do descalabro, o silêncio enfim enchia a noite vazia. Fechei os olhos com força, eliminando a única lágrima que sistematicamente caia pelo lado esquerdo do meu rosto. E ao levantar deparei com a total escuridão me encarando. Tinha olhos cintilantes, pequenos, porém brilhantes, julgando minha postura frente a eles. Tomei meu ar com postura, estufei o peito e encarei cada um dos infinitos que me observavam, até que parei naquele que me parecia ser meu próprio reflexo, a imagem de um eu passado, ou talvez um eu futuro. Caminhei com a brisa da noite sob o peitoril estreito, como criança na sarjeta, brincando com o único bem que detinha. Olhei para o chão, fundo... Olhei para o céu, vasto...

‘Eu não estou pronto’, disse fechando os olhos. Ainda enxergava um caminho à frente. Era os desvios que postergavam, ou o tempo que, rápido demais, fluía me mantendo na retaguarda. Não sei se já esgotei todos meus segundos, mas clamo para que possa encontrar o que me trouxe até aqui. ‘Me deixe encontrá-la’, disse mais uma vez para as estrelas...

Eu não sabia de quem eram os olhos misteriosos, não sei se fugia de alguém ou de mim mesmo, então fechei os meus, e a escuridão silenciou a noite. Eu ouvia o relógio marcando os passos que eram deixados para trás, andei conforme o ponteiro ditava, em círculos uniformes. Quando perdi meu norte, enfim, me entreguei ao destino que o céu estrelado me guardava, o vento me empurrou suavemente, continuei de olhos fechados, levado, guiado. Antes de atingir o chão, então, ficara sabido que desistir não era uma opção. E mesmo que abstrato, antes tardiamente do que jamais.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

No Shopping



As duas garotas estavam sentadas lado a lado na mesa de shopping. Elas conversavam bem animadas e sorriam com bastante frequência. Foram as únicas coisas que reparei antes de chegar até elas, colocar as mãos sobre uma terceira cadeira na mesa e perguntar:

- Por um acaso esse lugar está ocupado?

As duas cessaram a conversa e recolheram o sorriso do rosto para ouvirem a minha pergunta. Eu continuei mantendo o contato visual e a resposta me pareceu demorar mais do que deveria. Não sabia se tinha interrompido uma conversa importante ou falado embolado demais (como acontece às vezes). Decidi falar novamente:

- É que eu e meu amigo (apontei para a mesa ao lado, onde estava Beto, o meu amigo. Ele sorriu e deu uma piscadinha), nós queríamos saber se...

Fui abruptamente interrompido! E aquela que parecia ser a mais velha, talvez por ser a mais alta e corpulenta, (já que a outra garota era bem baixinha e magra) foi dizendo quase que gritando:

- Não, a cadeira não está ocupada, mas você e seu amigo não vão se sentar com a gente! Nem adianta ficar de gracinha. A gente não vai transar com vocês – Eu congelei toda e qualquer reação enquanto a garota ia vomitando todas aquelas palavras. Eu estava ali imóvel, apenas esperando que ela terminasse logo – Agora pode voltar pra lá com seu amigo, não venha encher a nossa paciência!

Eu pude reparar que a garota da esquerda, a que ficou quieta, estava claramente com o rosto assustado, de quem estava parcialmente entrando em pânico. Eu dei um suspiro e conclui:

- Eu só queria a cadeira, tem apenas uma na minha mesa – E sai sem esperar qualquer outra reação delas.

A impressão que eu tive quando dei de costas para as meninas era de que a garota mais nova olhou rapidamente para a mesa onde estava Beto naquele momento, e constatou que havia apenas uma cadeira, de fato. Pois pude ouvir um “É tudo parte da estratégia, não se engane”. Fiquei pensando se a aliança na minha mão, que certamente elas não viram, também fazia parte de uma estratégia maluca de flerte.

Eu peguei uma cadeira de uma terceira mesa que havia acabado de esvaziar e sentei na minha mesa com o Beto, que estava com os olhos arregalados e a boca aberta:

- Cara, que mina grossa mew! Por que você não mandou ela se foder? Folgada! – Dizia ele visualmente indignado com a cena.

- Relaxa! Vamos comer – Disse eu tentando matar o assunto ali e comer minha comida.

- Mas cara – Ia insistindo Beto - Pra que toda essa grosseria? Só por que ela achou que você queria dar em cima dela? Que falta de educação! Deixa eu ir lá falar umas verdades pra ela, foda-se!

Eu ouvia Beto como se não desse a mínima, mas era estranho sim! Enquanto ele continuava esbravejando seu ódio eu dei uma nova olhada para a mesa das garotas. Elas estavam novamente conversando e rindo. Eu reparei que o sorriso delas abria de uma maneira bastante característica, e logo sumia. Como se fosse segredo! Elas pararam por um instante de conversar e ficaram se encarando com olhos profundamente conectados, a moça mais alta passou a mão no rosto da outra, e ela sorriu. Em seguida segurou a sua mão por debaixo da mesa, e a garota pequena deu uma varrida visual com alto teor de desconfiança no ambiente ao redor.

Beto continuava falando:

- Odeio desrespeito, sabe!? Nada justifica ela falar dessa forma com você!

Eu dei uma olhada para ele sem dizer nada, mas como se falasse “Chega, Beto! Pelo amor de Deus!”

Eu não precisava de nada além daquilo que já havia visto. Era uma cena característica. Era amor! E o amor é sempre lindo demais para deixar que qualquer coisa ofusque o seu brilho. E eu, parcialmente ofendido três minutos atrás, sorria por dentro agora. 

A garota mais baixa continuava varrendo o perímetro frequentemente com desconfiança. Eu conhecia aquele olhar, era medo!

Beto não havia visto isso. 

Continuou falando.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Amor maior




Passei por muitas situações na vida até perceber que o amor estava bem aqui, dentro de mim! Quando aprendi a aceitar quem sou, e a aceitar quais são os meus sonhos, eu acabei aprendendo a ser feliz! Descobri que boa parte do segredo estava em não dar aquela bola toda para o mundo, para as pessoas que muitas vezes tentam nos ajudar com aquele velho discurso da inveja, mascarado de compaixão. Sabe como é né!

Eu encontrei o amor da minha vida em um bar, em meio a duas cervejas e um bom papo jogado fora. Não foi nenhum encontro mirabolante de Hollywood, nem mágico e cheio de efeitos especiais e trilha sonora da Disney, muito pelo contrário. Tirei alguns sorrisos e perdi outros, mas na minha soma eu acabei ganhando o direito de pegá-la pelas mãos e beijá-la ternamente. E antes que você me diga que foi clichê eu vou lhe dizer: Sabe o que tem de mais especial nisso? Eu adorei, e isso que importa!

É quando você deita aquela noite de sexta-feira na cama e olha bem no fundo dos olhos dela, e percebe que não desejaria estar em lugar algum que não fosse ali, com ela. Você respira e sente o cheiro único da sua pele entre os lençóis, e sorri involuntariamente, por que aquilo te enche da sensação fenomenal que é tocá-la, sentir sua pele macia e cada curva do seu corpo. Você a toca na nuca e ela se arrepia toda, fechando os olhos e sorrindo graciosamente. Você passa os dedos pelo seu rosto e aterrissa nos seus cabelos, e o cafuné faz com que ela chegue mais perto e faça morada no seu abraço. Isso é amor!

É a confiança cega, é o braço estendido, é o orgulho por simplesmente ser quem é. Se você ainda não entende o amor, tenha calma! Comece amando a si mesmo, e quando aprender o caminho que te leva à felicidade, você aprenderá a enxergá-lo nas outras pessoas, e com isso poderá resguardá-las das coisas ruins que existem no mundo. Por que para cuidar de alguém precisamos dominar a nossa própria confiança. Fazemos disso tudo um caminho de afeto, onde você aprende a se doar, a se entregar, a dar parte de quem você é para uma pessoa qualquer. E esse gesto afeta o mundo, motiva nações, geram músicas e poesias, curam doenças, dão fim a guerras. Esse sim é o amor!

Ela diz que deu sorte em me encontrar e costuma estar sempre aqui por mim, naqueles momentos em que a gente duvida de si mesmo, sabe? São momentos terríveis! Mas ela sempre está aqui, sorrindo! E no final do dia eu faço meu balanço geral novamente, e na soma ela se doou tanto para mim quanto eu por ela... A reciprocidade faz parte do amor verdadeiro, sabe? Todo mundo precisa de um abraço mais apertado às vezes. Ela acabou fazendo eu me amar mais. Trocaria todo o dinheiro do mundo por todas as viagens possíveis ao seu lado. Felicidade é um conceito meio difícil para algumas pessoas, mas o café quente na mesa de manhã, a mensagem de bom dia na tela do celular e o filme com edredom em um abraço são suficientes para mim.

Eu digo que a amo todos os dias! Não que ela já não saiba, mas gosto de reafirmar uma coisa tão bonita. Ajuda a manter brilhante a harmonia de serem duas pessoas completamente diferentes dividindo o mesmo espaço, os mesmos sonhos. Parece até uma coisa rara, difícil de se ver por ai, mas não é! Até para quem não conhece o amor já o viu por ai. Então reavalie sua vida, vamos verificar a que doses de amor você tem se doado às pessoas certas, talvez baste retirar a parcela das que não fazem diferença alguma. Costumam ter de monte! Parasitas do amor estão por toda a parte, rostinhos bonitos e discursos prontos, não caia nessa! Ame e seja amado, e não tenha vergonha de dizer isso a ninguém! E assim sendo, di-lo-ei a quem interessar, em alto e bom tom: Te amo!

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Fomos demais para apenas um amor de outono







Você mal havia aterrissado por aqui, seu perfume ainda nem tinha estagnado na minha roupa de cama, suas roupas sequer se acomodaram no meu guarda roupas, e tão logo você se foi. Acordei no dia seguinte leve, há tempos não dormia tão bem. Parecia-me um sonho. O choque foi tamanho que eu me recusava a acreditar, meu corpo se negava a ficar tão decepcionado. Olhei no relógio e as horas passavam batidas enquanto eu caminhava em círculos pela sala de estar. Você não voltou, era verdade então, a ficha foi caindo lentamente, como a última folha de outono flutuando até encontrar a grama verde do fim do verão. Parei por um segundo, não havia mais unhas para roer, o corpo de repente pesou, deitei no sofá da sala e escondi minha cabeça em meio às almofadas. Chorei por três horas.

            Achei seu celular anotado num guardanapo que eu havia guardado de quando nos conhecemos, ele foi se desfazendo devagarzinho, conforme as lágrimas desciam do meu rosto inchado de derrota. Não tive coragem de jogar fora a nossa foto no parque, sorrindo como duas crianças livres de preocupações, inocentes e puras, com o coração totalmente intacto, com a maquiagem perfeita para cobrir os retalhos que o amor deixa para trás quando perdemos parte de nós. Virei a foto ao contrário, por hora era o suficiente! Tropecei num salto alto jogado no meio do corredor. Sentei ali no chão e fiquei pensativo, o que eu devia ter feito de tão ruim para que você sumisse da minha vida sem se quer levar seu sapato consigo. Esperei o mês inteiro na expectativa que você me mandasse uma mensagem dizendo que buscaria seu salto na minha casa, apenas para poder te ver pela última vez, e me certificar pelos seus olhos que aquilo realmente estava acontecendo. Mas você não ligou, o salto ficou empoeirado, e enfim achei seu perfume em alguma camisa minha que você usava de pijama, me custaram três dias a coragem de joga-la no cesto de roupas sujas.

            Tínhamos aquele suave encaixe romântico, como poesia de Drummond e música de Chico. Aquela aquarela de sentimentos vibrantes em tons de alegria. Era uma obra de arte de Da Vinci que se via e sentia ao mesmo tempo, que se ouvia e se tocava em acordes maiores e bemóis. Eu te tirei para dançar enquanto a rádio tocava um clássico italiano e você deu risada. Bailamos pela cozinha enquanto o forno apitava a pizza pronta. Nossos olhos eram fixos e incontestáveis de paixão. Não me lembro da última vez que me senti assim, era a o amor sendo pintado sem tintas, era mágica sendo feita sem truques, era prosa sendo contada em silêncio. “Eu te amo!” e seus olhos vacilaram, o sorriso amarelou, e o silêncio em seguida já não era tão bonito. Muito cedo, eu sei! Mas qual o tempo dos corações? Me pergunto se realmente  palavras sinceras são capazes de estragar um conto de amor.

            No espelho eu já era um livro de histórias de amor. Tinha dezenas de aventuras em cada página da minha vida. Podia sentar numa mesa de bar e virar a madrugada destilando meus feitos e desfeitos no amor. Não tinha mais idade para chorar tanto, para sofrer por amores efêmeros, me sentia envergonhado de me deixar abater pelo mesmo motivo depois de tanta bordoada que a vida me deu. Eu acordei no domingo com a campainha tocando, era cedo e eu definitivamente não iria atender. Mas dessa vez eu já me sentia bem. Levantei radiante, afinal as dores passam, era muito bem sabido por mim que o tempo era tão mágico para curar quanto o amor era para iludir. Era hora de sorrir de novo, a vida continuava bela sem você
.
Abri a porta e lá estava você, com um sorriso amarelo, os olhos de cão de adoção e um saco de pão francês nos braços. O silêncio perdurou por alguns instantes, então você sem permissão alguma entrou pela porta, pôs o saco de pão na mesa “você gosta deles frescos pela manhã certo?” disse sem olhar para mim, indo até o quarto. Eu continuei em silêncio sem saber como reagir àquela cena. Você voltou com seu salto nas mãos “sabia que tava aqui, você nem pra dar uma limpada, olha que nojo isso daqui!” Eu parei na sua frente e segurei você indagando o que você pensava que estava fazendo ali. Lembro perfeitamente que você desmontou suas defesas naquele instante e me olhou nos olhos com aquele ar de remorso. “Eu te amo!” e abaixou a cabeça. “Como assim me ama? Você sumiu por três meses!” E você me beijou antes que eu tivesse um acesso de raiva. “Precisei digerir tudo isso, aceitar partes de mim que eu ainda não sabia lidar. Peço desculpas pelo sumiço, mas fico feliz de ter chego a tempo, ainda mais feliz por te ver tão bem, mesmo depois de tudo”. E eu perguntei o que fazia você achar que ainda havia tempo, que eu ainda estava disposto a tê-la comigo, que eu ainda sentia amor por você. 

Você me disse “Escute a música!” e o silêncio balizava os quatro cantos da casa, você pegou as minhas mãos e começamos a dançar ali, era incrível como conseguíamos nos sincronizar naquela canção que tocava apenas dentro de nós. Acabamos sem roupa na minha cama, acabamos juntos nas nossas vidas.
           

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Ressaca


Acordou depois de algumas horas de consciência perdida em uma balada qualquer da qual já não se lembrava mais como tinha entrado. Um amigo estava em sua companhia, porém isso não fez muita diferença, pois se sentiu mal por estar naquele estado, se sentiu mais sujo do que os mendigos que cruzava na rua por vezes. Tentou levantar, cambaleante se colocou de pé e teve o primeiro flash de lembranças do que tinha sido aquela noite.
Anteriormente estava em um bar acompanhado de seus amigos, nada que fosse fora do comum. Ele possuía poucos amigos e, naquele dia em específico, não tinha nada para comemorar, saiu de casa com o intuito de pensar, de estar sozinho e por acaso encontrou alguns amigos, estes chamaram outros e logo havia um grupo de cinco amigos. Definitivamente ele não ficou contente com esta situação, estava em um momento pensativo, um momento que não gostaria que fosse interrompido por ninguém. Queria estar junto de seu copo de vodca e pensar sobre a vida. Então, enquanto todos conversavam entre si, sem a menor consideração pelo rapaz que a principio reuniu todos ali, ele começou a pensar.
A noite começara mal, ele voltou à sua adolescência, lembrou-se de sua mãe falando sobre amor, sobre o que era o amor. Ela sempre dizia que ele encontraria um grande amor um dia, e como todo rapaz impaciente, buscou essa pessoa, esse sentimento em todos os lugares onde poderia procurar. Não encontrou o tão falado amor, então se entregou ao álcool. Sentia que aquilo o preenchia e aos poucos se tornou algo entre adicto e aceitável socialmente. Quando teve essa lembrança, seu estomago se revirou, e nesse movimento ele mesmo virou seu copo de vodca.
Pensou em algo que sua ex-namorada dissera para ele alguns anos atrás: “você pode até ser “amado” por todos, mas estará sempre sozinho, sempre”. Ele sentia essa loucura crescer dentro de si, essas palavras atravessavam-no como navalhas afiadas. Em alguns momentos ele até desejava que fossem mesmo. Não conseguia concentrar-se em nada do que estava ocorrendo ao seu redor, nem em seus amigos que queria despistar, nem em seus pensamentos deprimentes de um dia ruim que teve em vida.
Ele continuou a beber, dessa vez, sentiu que precisava perder sua cabeça, precisava não pensar em nada, pois já tinha perdido o momento que tinha planejado. Sentiu suas memórias como um vampiro, sugando toda sua vontade de viver, tirando o mais intimo de si e transformando em algum show estranho que só passava em sua mente. Horas se passaram e ele bebeu até se embriagar completamente. Quando estava bêbado começou a chorar, falou para seus amigos que gostaria que Deus o viesse buscar, e leva-lo para qualquer lugar. E foi neste momento que seus amigos o tiraram do bar. Em sofrimento ele deixou aquele espaço, porém já não sentia mais que sua mente lhe pertencia, pertencia a algum demônio, alguém que era incapaz de se sentir bem, incapaz de se sentir amado, incapaz de desejar. Chorou até seus amigos levarem ele para uma balada, sem a menor consideração pelo que ele realmente sentia naquele momento.
La dentro encontrou todos os placebos necessários para esquecer seus pensamentos, até que desmaiou. Não esqueceu do que se passou, mas queria esquecer, queria esquecer cada segundo que já viveu e focar apenas no que será vivido, mas sabia que isso é impossível. Ele queria apenas estar minimamente feliz, queria parar de mentir para si mesmo, queria encontrar algum motivo realmente útil para continuar vivo, mas no fundo desejava que não tivesse nascido. Ele sabia que a dor era inevitável, mas não encontrava forças para continuar lutando por qualquer coisa que fosse.

Esse foi um dia horrível.