terça-feira, 4 de outubro de 2016

Estrelas





Lá de cima me via estatelar-se ao chão, e com o som opaco do descalabro, o silêncio enfim enchia a noite vazia. Fechei os olhos com força, eliminando a única lágrima que sistematicamente caia pelo lado esquerdo do meu rosto. E ao levantar deparei com a total escuridão me encarando. Tinha olhos cintilantes, pequenos, porém brilhantes, julgando minha postura frente a eles. Tomei meu ar com postura, estufei o peito e encarei cada um dos infinitos que me observavam, até que parei naquele que me parecia ser meu próprio reflexo, a imagem de um eu passado, ou talvez um eu futuro. Caminhei com a brisa da noite sob o peitoril estreito, como criança na sarjeta, brincando com o único bem que detinha. Olhei para o chão, fundo... Olhei para o céu, vasto...

‘Eu não estou pronto’, disse fechando os olhos. Ainda enxergava um caminho à frente. Era os desvios que postergavam, ou o tempo que, rápido demais, fluía me mantendo na retaguarda. Não sei se já esgotei todos meus segundos, mas clamo para que possa encontrar o que me trouxe até aqui. ‘Me deixe encontrá-la’, disse mais uma vez para as estrelas...

Eu não sabia de quem eram os olhos misteriosos, não sei se fugia de alguém ou de mim mesmo, então fechei os meus, e a escuridão silenciou a noite. Eu ouvia o relógio marcando os passos que eram deixados para trás, andei conforme o ponteiro ditava, em círculos uniformes. Quando perdi meu norte, enfim, me entreguei ao destino que o céu estrelado me guardava, o vento me empurrou suavemente, continuei de olhos fechados, levado, guiado. Antes de atingir o chão, então, ficara sabido que desistir não era uma opção. E mesmo que abstrato, antes tardiamente do que jamais.