domingo, 23 de agosto de 2015

Você é infinito dentro de tantas finitudes

Seria tão mais simples se você não fosse sinônimo de infinito. Com tantas finitudes que o mundo carrega, você realmente se fez excessão, com essa mania de me mostrar seus talentos em doses homeopáticas, com todos os paradoxos que te faziam ainda mais eternos, com todas as hipérboles que diziam muito de você e de mim, mas nunca de nós.

    Sabe, eu poderia citar milhões de palavras que se aplicassem a você como uma definição, mas nenhuma delas te descreveria o suficiente, nenhum medo seria mais do que um balão flutuante que te fazia sentir orgulho de ir lá para o alto e ignorar o perigo da queda, e isso fazia com que eu demorasse horas pensando em um único termo que pudesse te cair como uma luva, isso me fazia perder tempo e fôlego pensando na sua voz e imaginando algo grande o suficiente para descrever sua vontade de viver, de sair da própria zona de conforto e ir parar em um universo completamente idealizado pelas idéias catastróficas de ser (a)mar, já que a água sempre transformava o nosso nó em um nós, existente apenas nesse mundo platônico.

    Seu cheiro de nuvem, seus cabelos cor de mel e a sua sobrancelha sem divisão me levavam a loucura, me faziam te querer a cada dia como se fosse o último das nossas vidas, como se você fosse um monte de ilusão em forma de pessoa, sempre bom ou ruim demais para ser de verdade.

    Eu lembro dos seus comentários sobre a minha mania de arquivar tudo manuscrito, como se ter cada minuciosidade de mim escorrida em caneta colorida, como se tudo o que eu fizesse no papel fosse exagero, como se virar estrela no céu da tua boca fosse mais ganho de tempo do que ser lua cheia para mim mesma.

   A verdade é que hoje eu vi os pontos brilhantes lá em cima escrevendo seu nome, carregando a mesma infinidade de existência que você, com os mesmos detalhes carregados de unicidade que você possuía, e então percebi que você é estrela, mas não qualquer estrela, a mais importante, a mais brilhante e a mais notória do meu céu, isso sim te define... Estrela, minha estrela, sem mais paradigmas necessários para te decifrar.

(Marina Galvão)
   

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Você e as minhas figuras de linguagem...

    A vida é feita de tantas descobertas, que eu jamais poderia imaginar que você seria uma das melhores da minha existência, e imaginaria menos ainda que seria uma descoberta tão difícil de se esquecer.

     As pessoas vivem tendênciadas a acreditar que serão eternamente colocadas frente a obstáculos e a controles inexistentes criados pelo seu próprio psicológico, e o pior de tudo isso, é que nada pertence de verdade há pessoas neste mundo, e eu só fui me dar conta disso depois que te conheci.

    Eu fui apenas uma pessoa lançada na sua vida, e sinceramente a ideia de não ter te pertencido e não ter tido a sua completude me machuca, uma dor que que preenche todas as lacunas do meu ser de modo enraizado, de maneira nada civilizada e em doses nenhum pouco homeopáticas. 

    Passei longas horas refletindo sobre a sua ausência que magicamente virava presença, vivi muito de passado, das coisas que um dia fomos, e sempre foi de maneira tão intensa que eu esqueci por algum tempo o futuro que aguardava pelas minhas atitudes, como uma lagarta que morre antes de virar borboleta, metaforicamente falando.

     Acredito que você desconhece a minha paixão frenética por comparações e figuras de linguagem, principalmente quando se trata de prosopopéia, o que me impressiona muito porque eu sempre soube de cada mania e atração sua, inclusive dos seus exageros e dramas quando atribuía vida a seres inanimados e esquecia das vidas reais existentes a sua volta, por isso, pode ter certeza que absolutamente tudo o que eu queria agora era algum sinônimo que pudesse te suavizar, que fizesse você virar apenas uma brisa leve, e não um furacão destruidor posto a minha frente.

    Você aparentemente sabia cada passo que eu daria antes que eu pudesse pensar em da-los, e isso me fez intuir que o seu conhecimento a meu respeito fosse maior do que aquilo que eu sentia, porque a sua mania de ser anáfora no começo de cada frase partida da minha vida, repetindo-se de modo implícito quando tudo o que eu queria era deixar a complicação de lado e virar sujeita simples, nunca me permitiu abrir mão do composto.

    Hoje em dia, por mais que seja árdua a sua falta aqui, me alivia pensar que eu já não durmo pensando no seu nome, nem pronunciando as palavras que um dia eu te disse ou até mesmo saio de casa buscando seu rosto em cada face que eu observo nas ruas, isso me faz pensar que você continua sendo hipérbole, mas está tão longe que ficou mais simples te fazer eufemismo em minha mente.

(Marina Galvão)
   

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Embaraço desembaraçado

É verdade, assumo nesse momento, você é minha causa perdida. Cansei de falar que não amo mais você só pras minhas amigas acharem que eu te esqueci. Eu não esqueci, ponto. Isso não é culpa de ninguém. Eu não superei você, e nem tô chegando perto disso, simplesmente porque eu não quero! Porque ainda tem um fiozinho de esperança que faz eu acreditar que tem um "nós" escondidinho em algum lugar aí dentro de você, não é possível que todo esse amor que eu sinto exista pra eu viver sozinha, seria solidão demais, até pra mim.

Eu já tentei, de um jeito torto, desconcertado, colocar outra pessoa no seu lugar, transferir todo esse sentimento pra quem mereça, só que isso é impossível. Já briguei, já xinguei, já tentei te odiar por coisas que você nem fez. E morri de chorar quando pensei por um segundo que a gente não ia se falar mais, naquele dia que a gente brigou pra valer.

Não cansa te ter assim pelas metades? Cansa muito e dói mais ainda, mas entre te ter em pedaços e não te ter eu prefiro juntar os pedacinhos e ir montando alguma coisa que um dia vai ser inteira. Não tem jeito mesmo, eu posso até vez ou outra fazer milhões de textos dizendo que superei e que vou seguir em frente mas é tudo mentira. Essa coisa de desapego, mentira pura! Dura só até te ver com aquela "vaca sem sal" que todo o apego, sentimentalismo e toda a infantilidade do mundo me atropelam feito uma avalanche. Claro que eu vou ser a atriz de sempre e fingir que não tô nem aí, mas vou procurar ver você em todo cara que eu ficar, e tudo que qualquer um fizer que não for igual ao que você faz vai me incomodar, e tudo que eles fizerem igual ao que você faz, vai me incomodar mais ainda. Eu vou voltar pra casa sozinha, mais uma vez, quando tudo que eu queria era voltar escutando "Senhor do tempo" no carro com você. Vai ser sempre a nossa música. E eu odeio isso, porque eu queria ouvir ela sem ter que lembrar da gente, só que não dá. Se eu gosto de sofrer? Eu odeio, odeio cada segundo, mas parece que gostar de você é sinônimo de sofrimento. Porque amar não se aprende,porque quem aprende a amar não aprende o amor.

Amor surge e pronto, e eu tô aqui do seu lado, aguentando chuva de pedra, frio e calor esperando o seu amor surgir, se tá demorando? Tá demorando demais! Mas pra quem já chegou até aqui meu bem, o que é mais uma chuva ou mais um verão? No fim das contas eu tô aqui de qualquer jeito, e o que o vento leva, eu reinvento de volta só pra viver com você. Amar no plural é tão singular que um mais um não seria dois, mas sim nós. Se tudo o que você ler aqui não fizer sentido, por parecer embaralhado ou perdido demais, saiba que é exatamente assim que eu me sinto. Embaralhada e perdida, esperando seu amor chegar.

Se for para ir, não fica.

Eu poderia te dizer que você foi o amor da minha vida, que cada pequeno espaço de mim ainda carrega a intensidade das suas palavras em plena madrugada e da sua voz sussurrando no meu ouvido. Eu poderia muitas coisas hoje, inclusive esquecer seu nome, endereço, telefone, a cor dos seus olhos e aquele seu sorriso super branquinho aberto em uma chamada de vídeo em plena madrugada.

    Sabe quando alguém faz tanta questão de mostrar ausência e esquece que o que se sente de verdade é a presença? Se você sabe, só me prova o quanto se conhece, porque eu não fui e nem serei a princesa do seu mundo encantado, como já disse uma vez, o meu encanto não precisa de um príncipe, mas o meu desencanto... Ah, ele sim precisa das suas mordidas leves no meu ombro e do seu cabelo bagunçado.

    Eu sempre fui acerto, mas quando queria alguém corria para os seus erros, e isso me confundiu até o nosso último abraço, porque seu vulcanismo eruptivo, as suas armas sempre prontas para ataques e a sua doçura semelhante a um limão foi tudo o que eu tentei manter distante, mas você passava por mim e voltava, e tentou tanto que meus ouvidos gravaram o timbre da sua voz, o seu dedilhar no violão e os seus olhos se fechando, era como se a cada passada você ficasse, e eu não queria você aqui, a sua distância na minha vida seria o ideal em cada segundo impossível onde o meu ego prezava por alguns minutos de sobrevivência sem o pensamento lá em você.

    A verdade é que eu já desconhecia quando você chegava ou partia, porque você ia embora e me levava junto, me impedia de ficar, e fazia isso só passando por mim, fazendo tempestade da chuva mais ácida que o meu peito poderia sentir, e assim se fazia completude e vazio, contradição cheia de amor ao desconhecido.

    Eu passei muito tempo admirada pela maneira intensa que você possuía de levar a vida. Senti como se a sua sede por conhecer todos os lugares do mundo e os seus sonhos encantados que te permitiam ser oceanos, mares e lares, pudessem um dia me pertencer. Pudessem um dia ser a morada que eu queria, sempre com a barba mal feita, a camisa cheirando bem e os braços mais envolventes que eu já experimentei na vida.

    Tudo o que eu queria era poder afirmar que isso que quase tivemos foi mais do que encanto, pelo menos algumas gotas a mais de vida, mas sempre que eu fecho os olhos e olho para trás, só consigo ver as minhas ilusões carregadas do platônico, os meus olhos vendados por um amor provável de existir, mas jamais existente de verdade, sempre morto pelas probabilidades infinitas aplicadas pela vida.

    Eu queria poder pensar no nosso amor como palpável, mas tudo sempre foi tão abstrato que o seu domínio sobre mim tornou-se maior desde que você partiu... Vai embora, mas vai de vez! Por favor, não vai e fica ao mesmo tempo.

(Marina Galvão)

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

EFEITO BORBOLETA


Leia ouvindo: I'm not the only one by Sam Smith


A vida tem dessas coisas mesmo. Hoje a gente ri e amanhã chora. E depois passa três semanas e a gente continua chorando! Ninguém disse que seria fácil, ninguém disse que seria justa, dificilmente você vai encontrar alguém que tenha as mesmas oportunidades que você. Muitos estão tão acima, mas também tem os que estão tão abaixo. É de uma honra imensa aprender a ser humilde, a partilhar parte do pouco que você tem com aqueles que passam a vida inteira sonhando com o seu padrão de ordinário.

Todo mundo que acredita, que se sacrifica, ganha ao final. Não importa a proporção, se você ama você já é um vencedor. Falta muita ética por ai, honestidade, transparência. O mundo está repleto de hipócritas, dissimulados, egoístas. O mundo é de uma falsidade tão grande que falar a verdade não é mais usual. Você deve aprender a argumentar seus pontos, a saber dar importância a você, às coisas as quais você acredita piamente. Aprender a amar quem te ama, a ser mais para quem realmente deseja que você seja mais.

Em suma, o mundo está dividido em duas classes de pessoas, as que fazem questão e as que não. Da maneira mais artesanal possível aprenda a traçar essa linha, estipule limites, crie organogramas, faça listas, elabore teses e notas. Se organize e coloque cada qual no seu lugar, onde merecem, onde você possa separar aqueles que você sabe que lhe entenderão quando você precisar de um ombro, de ajuda, de apoio, de um simples, inofensivo e gratuito abraço. Aos que não fazem questão o seu menor empenho, a sua face mais crua. Sejamos educados, prestativos e cordiais, mas jamais entregue sua essência a quem não merece.

Quando lhe estenderem a mão, agradeça. Se lhe pedirem a mão, ajude. E se encontrar alguém que precise de apoio, mas seja demasiadamente orgulhoso para pedir por ajuda, ofereça a sua independente da situação. Seja proativo, faça a diferença dentro do âmbito social ao qual você faz parte. Você pode achar que não, mas se doar é fundamental para se receber.

Independente do que seja certo ou errado, da matriz dogmática em questão, entenda que no topo de tudo existe você, existe a qualidade da vida que você vive, o percentual de sorrisos que você dá ao final do dia, a taxa de crescimento das suas amizades verdadeiras, o acumulo de experiências e histórias que você vivencia ao lado de quem se importa. Não exija de você mais do que devia, não crie expectativas demasiadas nas pessoas, confie em você antes de tudo, economize suas lágrimas para as centenas de momentos felizes e importantes que você ainda terá na sua vida. O mundo não é uma ciência exata, não existe função que defina todas as variáveis existentes, ninguém prevê futuro usando o Excel. O amanhã é incerto, mas virá. E quando vir, meu amor, não queira dividir as coisas em grupos e dar nota para tudo, nota só para a felicidade, e se ela não estiver próxima de dez, reformule, repense, jogue tudo para o alto! Por que não importa onde você esteja, você merece muito mais... E se você acredita, você terá muito mais!

***Curte ai moçada!



segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A manhã em que o mundo acabou



Ele sentou-se na varanda e observou o sol nascer em meio à neblina da cidade onde morava. Nunca havia percebido o nascer do sol daquela forma. Olhou para dentro de seu apartamento a fim de confirmar se mais alguém viria ao encontro do sol, porém ninguém veio como era esperado por ele, então se voltou novamente para o nascer da estrela. Junto à neblina os prédios pareciam barcos, então ele imaginou o mar, imaginou as ondas, o vento, o cheiro, o som e o movimento, sorriu pensando em sua última visita ao mar. Repetiu para si mesmo: “Incrível como somente hoje a cidade virou o mar, hoje eu virei o mar, somente hoje.” Levantou-se e ligou a televisão somente para ver a tela azul escrita “sem sinal”, não houve um som sequer, nem na televisão nem no rádio, tudo estava o mais puro silêncio. O sol continuou a nascer e com o reflexo dos raios a neblina parecia ter ondas. O rapaz voltou para a varanda e visualizou novamente os prédios cobertos pela neblina, alguns possuíam luzes vermelhas que se assemelhavam a sinalizadores, ele pensou que pareciam barcos e um prédio mais alto parecia uma farol, para onde todos os outros prédios iriam de encontro, aquele seria seu porto seguro, o ponto para onde todos seriam conduzidos. Imaginou-se lá, imaginou-se em um porto e riu novamente.
Acendeu um cigarro e olhou para trás novamente, mas ninguém apareceu, nem uma sombra de vida. De súbito viu uma pequena chama no prédio em frente, como um isqueiro ou um fósforo, viu uma fumaça que era característica de cigarros e ouviu uma tosse seca. A neblina não dissipava, porém foi possível ver a silhueta de uma moça, com cabelos grandes e parecia olhar fixamente para ele. Olharam-se e pensaram como nunca tinham se visto antes, olharam-se e pensaram no efeito do nascer do sol. Do outro lado da rua ela estava experimentando pela primeira vez um cigarro, coisa que nunca tinha feito antes. Na verdade tinha acabado de se mudar e começar sua nova vida, vida que ela nunca esperaria ter, vida que começara há cinco meses apenas. Vida que ela nunca teria. Pensou que tudo que havia feito era em vão, perdeu seu tempo ganhando dinheiro e trabalhando muito, abriu mão de relações e coisas que gostava para tentar ter coisas e nada disso importava naquele momento.
Os dois ouviram um grito vindo da rua, não identificaram o que poderia ser, mas provavelmente era só mais um bêbado ou alguém que ainda não havia aceitado o fato de que o mundo iria acabar naquela manhã. A cidade estava completamente vazia, os que moravam nela juntaram seus últimos esforços para irem para algum lugar mais confortável, com suas famílias, ou amigos próximos, no campo ou em outra cidade, não tinha importância, naquele momento nada tinha importância, o que realmente importa numa circunstancia dessas? Ele ficou pensando, não tinha familiares próximos e nunca conseguiria chegar a tempo de ver os poucos familiares que tinha, além do mais, eram distantes então não dava muito valor a eles. Seus amigos, os poucos que tinha, foram visitar suas próprias famílias, deixaram tudo para trás, deixaram algumas cartas para ele, foram embora para junto daqueles que amavam, e ele não tinha muito que fazer nesse sentido, estava completamente só e no fundo não se importava com isto. Seu mundo havia acabado há muito tempo quando seus pais e irmãos morreram em um acidente, não conseguia se envolver muito profundamente e por isso nunca tivera uma namorada ou esposa. Gostava de suas relações superficiais, mas não de uma companhia amorosa. Adorava a atenção de seus amigos, eles tinham um papel que nunca pôde ser substituído, eles eram as únicas pessoas que realmente o compreendiam e por isso não sentia falta de tanto contato amoroso.
Do outro lado, no outro prédio a mulher pensava no tempo que havia perdido. Novamente, depois de tempos pensando nisso, estava chorando, sentiu que sua vida tinha sido um desperdício desde que nasceu, sentia a culpa por tudo. Seus pais estavam do outro lado do país, e ela não conseguiria vê-los. Amaldiçoou todas as emissoras de televisão e o governo que esconderam a informação do eminente fim do mundo até o ultimo minuto, todos foram pegos de surpresa, ela também. Estava chorando, sentia que poderia ter visto seus pais, mas não quis, estava chorando por que não os amava, não tinha motivos para isso, estava chorando por que, na verdade, estava agradecida que a vida iria acabar para todos, que o mundo ia se extinguir daquela maneira, rápida, indolor e sem memórias. A culpa desse fato atormentava-a, ela deveria amar seus parentes, deveria amar pessoas, pois é assim que as pessoas devem se comportar em uma sociedade normal, mas ela não, não os amava, não os perdoava por depositarem nela toda a culpa da vida destruída, por falarem, mesmo nas estrelinhas, que ela era o motivo da ruína deles, e por esse motivo não os amava e se torturava com essa culpa. Estava chorando e fumando seu primeiro cigarro, mas não estava com medo. No fundo estava agradecida por aquele fato. Sabia que era mórbido esse tipo de pensamento, mas era inevitável pensa-lo. Então subitamente deu um grito e o rapaz em na varanda de sua casa ouviu.
Ele sentiu pena daquele grito, era nítido seu desespero, era claro como a água que reflete o sol que ela estava sofrendo, e ele nem sequer conseguira ver o rosto da moça, ficava apenas imaginando o que ela era, o que aquilo significava. Sentiu a neblina ficar mais densa, viu as luzes dos prédios ficarem mais claras, imaginou como aquela cena seria em um dia normal e percebeu que seria uma cena banal, uma cena que ele nunca prestaria atenção, sabia que a cidade havia engolido toda sua espontaneidade, que jamais se importaria com aquela cena, mas que naquele momento, com seu cigarro aceso e com a eminencia do fim, percebeu que aquela simplesmente era a vista mais linda que tivera em toda sua vida. Levantou-se foi pegar sua câmera fotográfica, que comprara e nunca utilizara em ocasião nenhuma, gostava disso, gostava de acumular coisas para parecer que tinha algum nível de profundidade, mas na verdade vivia de aparências e sentia alguma dor por isso. Sentou-se com sua câmera, mas não tirou uma foto, apenas olhou para ela e se viu refletido na lente, olhos verdes, cabelos castanhos claros, rosto bonito, traços nórdicos como disse seu professor de genética certa vez. Lembrou-se da época em que estudava, sentiu um aperto no peito, perguntando-se se aquelas pessoas estavam com seus amores, imaginou que sim, com seus amores, familiares e cônjuges. Obviamente que pensou que sim, achava seus colegas de faculdade incríveis, poucos ficaram em sua vida e não tivera mais notícias dos que sumiram, mas era um rapaz otimista, viu seus colegas em boas situações para aquele momento e se viu novamente sozinho, e se sentiu um desperdício de vida. Pensou no que tinha feito na vida, nas pessoas que ajudou nas pessoas que se envolveu, nas coisas úteis que fez e se sentiu menos inútil, mas desejou voltar no tempo. “Tudo fica diferente quando se sabe do fim, a vida toma outro sentido” pensou o rapaz, e aquilo estava claro, refez sua vida quatro vezes em sua mente antes de apagar seu cigarro e olhar para o céu, então pensou novamente em sua vida, percebeu que ela era única, e que não poderia ter sido diferente mesmo que soubesse do fim. Pensou em voz alta que não gostaria que ela fosse diferente, apesar de todas as dores era sua vida que o fazia ser como aparentava ser, a forma única e especial em que se configurou sua existência. Sorriu e se sentiu menos fútil, mas concordou que tinha sim suas futilidades, entretanto não as dispensaria, pensou que se pudesse naquele momento compraria quinze tipos de queijo diferentes e degustaria cada um como se fosse o último queijo do mundo, por que naquele momento, eles seriam.
No outro prédio a garota começou a encarar a realidade, o amanhecer tinha se tornado mais forte, o fim estava próximo e ela sabia. Nesse momento entrou em colapso, gritou de novo, entrou em seu apartamento, pensando em todas as vezes que cobrou muito de si, o que deveria ter feito e não fez, todos os erros e acertos da vida. Perguntou-se como foi parar naquele lugar. Com toda essa confusão de pensamentos e sensações não conseguiu achar nenhuma resposta e colocou-se a chorar e quebrar seus utensílios domésticos. Atirou uma cadeira em sua televisão, quebrou todos seus vasos enquanto gritava que nada mais valeria a pena naquele momento. Estava acabando, ela não tinha para onde ir, estava em colapso completo, o colapso era anterior àquele momento, mas só ali, sozinha e perto do fim, pôde perceber que estava quebrada, de dentro para fora, completamente quebrada. Sentiu sangue em suas mãos, com raiva saiu correndo para se atirar da varanda, porém ao chega perto da grade percebeu a neblina cessar, e conseguiu ver o rapaz do outro prédio, logo à frente. Ele estava olhando para uma câmera fotográfica, ela estava querendo suicidar-se e o mundo iria acabar. Não conseguiu pensar em alternativas. Foi então que gritou e acenou para o rapaz, com o fim da neblina ele conseguiu avista-la, acenou de volta, foi um aceno fraco, desmotivado, porém sincero. O tempo era curto e ela em seu ataque de histeria, gritou que iria acompanha-lo no fim do mundo. Ele, sem jeito gritou que sim, não sabia se queria alguma companhia, mas o tempo realmente estava acabando, não havia como pensar, apenas como agir. Foi então que em um impulso os dois desceram à rua, o rapaz se viu obrigado a descer pelas escadas pela falta de energia em seu prédio, e a garota também. Ambos correram desesperadamente, moravam a quatro quadras de distancia. O caminho estava completamente imundo, a sujeira de alimentos, de eletrônicos, peças de automóveis e corpos de pessoas na rua tornava difícil a circulação e a respiração naquele espaço. O ar parecia estar envenenado, o cheiro de enxofre estava terrível misturado com o gás metano da decomposição dos dejetos que foram jogados nas ruas há poucos dias. Apesar de ser arriscado ir às ruas, aquele seria de qualquer forma o último dia, então os dois não pensaram em nenhuma consequência. O tempo passava tão rapidamente, cada segundo valeria mais do que qualquer quantia de ouro. Um segundo apenas.
Ouviu-se um estrondo gigantesco, os dois estavam perto de se encontrarem. Ao ouvirem o estrondo entenderam que estava acontecendo, que aqueles seriam os últimos minutos, ambos correram e choraram ao mesmo tempo. O rapaz ainda carregava sua máquina fotográfica, como esperança de que se sobrevivesse, se houvesse alguma forma de sobreviver, gostaria de tirar uma foto. Foi então que se viram e estavam na mesma rua quando houve um clarão, e um estrondo seco, olharam para o céu e viram uma luz rápida. Era o fim. E a única coisa que veio a mente do rapaz foi tirar uma foto da moça. Os dois estavam em lágrimas, a rua era longa, estava suja e com difícil acesso. A moça preparou-se para correr, mas sabia que tinha acabado, o rapaz ergueu sua câmera em um gesto automático, só teve tempo de apertar o botão.

Rafaela era mais amor do que cabia no seu mundo




Rafaela tinha um sério problema, ela tinha a mente do tamanho do infinito, era inquieta, barulhenta e demasiadamente confusa. Mas em meio ao caos existia uma doce ruivinha dos olhos verdes, que era mulher, que era inteligente, era determinada e maluca, muito maluca.

Rafa gostava de passear, andar pelas grandes praças da cidade e observar o desenrolar do mundo. Em tudo ela via poesia, em tudo ela achava amor. O vento nas tulipas encantavam seus olhos, as árvores entrelaçadas eram inspiradoras, o mar de prédios era instigante, os pássaros, as pessoas, tudo era um vibrar de cordas que atingiam o timbre perfeito do seu coração, que é tão cheio de fantasias.

O rapaz de olhos azuis e barba bem feita passou por ela passeando com seu cachorro e “Meu deus do céu! Que coisa mais linda!” e não era o cachorro. Rafaela gostava de homens, e ela achava que isso era uma espécie de maldição, além do mais que ser mais difícil de se envolver, somem quando querem, magoam com certa frequência e não sabem expressar um pingo de sentimento, depois dizem que as mulheres é que são complicadas. Pra Rafa era simples demais ganhar uma mulher, bastava lhe dar comida e um cafuné... Mas ela amava os tais homens mesmo assim, não fazia sentido, mas nem tudo na vida faz mesmo, certo?

Rafa tinha uma coleção imensa de decepções, guardava cada uma delas em páginas diversas do seu álbum de figurinhas imaginário, onde cada figurinha custava muito caro, mas ela sabia que ao completar a página podia trocar por um prêmio, uma incrível bagagem cheinha de “foda-se’s” que a empurravam para uma nova página. Era aquela coisa que a gente cansa de ver por ai, ela tinha tudo para ser um excelente parafuso, mas o receio de falhar acabava lhe tornando um péssimo prego. Rafaela era como uma estátua grega: linda e divina vista de longe. Mas ao se aproximar, percebiam-se suas rachaduras e fissuras, o quanto ela estava prestes a desmoronar.

O que acontece é que toda relação é baseada em construção, como aquele pacote de mil peças de lego que você passa horas buscando uma única peça para progredir no todo, demanda paciência, requer vontade. Mas ela tinha muitos “se’s” na sua cabeça, e a dúvida já deixou muita gente doida por ai. Ela adorava comparar o presente com o passado, acho que todo mundo tem medo de se magoar né? Mas passado é para refletir e não para repetir.

Dias depois ela viu o cara do parque no metrô, achou que era muita coincidência para não ser uma espécie de sinal, tinha onze milhões de habitantes na cidade e ela nunca havia jogado na mega, mas parecia ter ganhado uma chance, daquelas que a vida nos dá sempre de maneira singela e a gente acaba perdendo. Essa não ia passar não!

Ela não tinha absolutamente ideia nenhuma do que fazer. A qualquer momento ele iria descer numa estação e ela perderia sua chance. Seus pensamentos borbulharam, fritaram. Ela entrou em pane em meio minuto, uma gota de suor chegou a escorrer delicadamente pelo seu pescoço. Foi quando ela decidiu o que de costume ela fazia “foda-se!” e foi até o cara. Ela chegou como um ninja na sua frente, e quando ele percebeu, tomando um baita susto, ela disse rapidamente “Me beija, depois eu te explico!” Não sei o que ele pensou na hora, mas dificilmente alguém diria não para aqueles olhos tão naturalmente bonitos. Rafaela não sabia o quão linda e doce era, num mundo de pessoas tão vazias.

Ela não acreditou no que estava fazendo, ouviu o apito do metrô e saltou na estação, o rapaz mal teve tempo de abrir os olhos e as portas se fecharam. O metrô foi embora com ele, e ela ficou ali na estação imóvel “Que caralhos foi isso, Rafaela ?indagava ela sozinha para ela mesma. Adorava falar sozinha, achava que era muito louca por isso.

Ela nunca mais viu aquele cara, ela nem fazia questão. De repente, apenas o impulso de ter feito o que queria, sem se prender a nada, lhe dava uma satisfação completa. Parecia até que havia aprendido a ser feliz sozinha enfim, ria sozinha, se divertia com seus próprios pensamentos. O que será que as pessoas não falam dessas pessoas que riem sozinhas na rua? “São todas loucas!” Talvez sejam mesmo, mas são felizes! Maldito julgamento prematuro e infantil dessa gente.


Rafa continuou sozinha, ainda tinha a cabeça cheia de fantasias e desejos, era uma completa maluca por sonhos e filmes de romance. Mas agora ela tinha aquele jeito, sabe, aquele jeito de quem chegou ao fim do álbum, de quem colecionou todos os amores proibidos e sabe bem o que quer afinal. Há quem dizia a ela que as decepções não diminuem com a nossa experiência, mas ela nem dava mais ouvidos, pois acho que ela acabou amadurecendo com o passar dos (d)anos. 


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Ela é o oceano, entende?!

Imagem do arquivo pessoal de Hanna Kardenya

Eu a conheci. Se eu parasse o texto com esse fato já teria dito muita coisa, pois a presença dela é a do tipo que cala, logo palavra nenhuma traduz a profundeza daqueles olhos, daquela frágil existência; junto dela tudo perde o sentido ao mesmo tempo que é preenchido de diferentes sensações. Ela é o oceano, entende? de longe é silêncio e por dentro interrogação, aquele lugar que acolhe e amedronta ao mesmo tempo, ela é contradição e eu realmente não sei explicar o que me diz aquele olhar; posso dizer que frente a outros mares as águas dela vazam e se derramam no continente do existir. E eu, como agir? Dentro deste cenário, sou apenas um barquinho a deriva, sem rima, sem vida, e que de tão pequeno não entende como pode fazer diferença na imensidão daquelas águas. Ela tem um ar de quem precisa ser salva, não da poluição ou da pesca ilegal, mas dela mesma, pois ela se afoga nas suas próprias águas, ela enjoa e tem refluxo do próprio movimento que lhe cede vida. Consegue compreender o que digo? Ela é um ser que tira de dentro de si o sim e o não; ela é o cais dentro do caos; ela é a semente do seu próprio fruto. Talvez eu esteja condenada por tentar decifrá-la com essas ínfimas sílabas, mas eu precisava tentar, pois estar junto dela é entender a nossa grande insignificância diante da inefável vida que existe independente da gente. Não somos nada. E eu tenho certeza disso cada vez que a vejo morrer aos poucos, é como ver o oceano atlântico secar à conta-gotas. Devastador. Porém, tudo isso muda quando ela sorri e por um momento eu deixo de ouvir a bomba-relógio que é o seu coração; quando ela sorri parece que vai sair tulipas e orquídeas de dentro dela. Seu sorriso afasta as tempestades e só dá espaço para o cultivo; ela é terra fértil e com aqueles olhos que também sorriem, nem que seja por um breve sopro, tudo é capaz de florescer. E ali, naquele pequeno espaço entre a vida e a morte, a maré se torna palpável, vibrante e envolvente. A moça se deixa sacudir e afasta toda a poeira trazida de fora; ela não tem vergonha da sua diferente  e indiferente estadia pelo mundo, na verdade, ela só não sabe ainda como respirar dentro ou fora do seu mar e enquanto isso vai seguindo do jeito que pode, anda se segurando nas bordas da vida afim de sentir algum tipo raro de confiança e pedala com rodinhas extras para que seus movimentos não sejam duvidosos. Mas duvidosos é o que mais são. Enfim, a moça é poesia e não precisa de rima repetida para se constituir como tal, ela apenas inspira, expira e me inspira.

domingo, 2 de agosto de 2015

PORQUÊ A DISTÂNCIA DESTRUIU NOSSO AMOR.


Vivemos nesse mundo tão vasto, tão amplo e extenso com aquela falsa ilusão de que as redes sociais podem vencer aquela saudade que a distância constrói entre dois corações apaixonados. Quem nunca vivenciou essa amarga situação? Nem que tenha sido como espectador! Queria lhes contar aqui o dia em que a distância destruiu o meu mundo.
Eu tinha certeza que nosso amor era a resposta para todas as perguntas do reality show da vida. Eu sabia que você era a razão que me faria querer acordar todos os dias sorrindo e buscando algum significado nessa vida. Nós éramos repletos de elos e singularidades que nos classificavam como perfeitos amantes de uma história única de amor. Ninguém duvidada disso ao olhar nos seus olhos, ninguém acreditaria no que aconteceria vendo meu sorriso por você. A gente construiu um castelo inteiro de felicidades, e mesmo nos piores momentos dançávamos de mãos dadas em cima dos problemas, nada era páreo para a ligação que existia entre nós.
Foram anos mágicos com você ao meu lado, estudávamos juntos todos os dias, e fazíamos de matemática à história irem de diversão a sorrisos. Até que então conseguimos mais uma vitória. Ainda lembro daquela tarde ensolarada quando nos nossos olhos escorriam lágrimas de felicidade, você aprovada na UNICAMP e eu na UNESP. Estávamos prontos para realizar mais um dos nossos sonhos pessoais, para que enfim pudéssemos realizar todos os nossos outros sonhos, que criamos entrelaçados e conjugados ao nosso faz de conta particular.
Foram meses afora de muitas saudades e dor, muitos dias de carência e angustia. Tinha dias que eu acordava com aquela vontade maluca de pegar o primeiro ônibus até onde quer que você estivesse e te abraçar como se não houvesse amanhã, e nunca mais deixar que você se afastasse de mim novamente. Mas a vida não costuma ser um romance de Hollywood, foi difícil ver você mudando, foi difícil aceitar todo esse novo mundo que agora fazia parte da nossa realidade. Não posso culpá-la pelas madrugadas em festas da faculdade enquanto eu jazia no meu quarto estudando, tão menos por ter feito dezenas de amigos enquanto eu perdia os poucos que tinha. Eu não posso dizer que o meu ciúme naquela época era saudável, mas também não posso me culpar para sempre por ter sido obrigado a viver essa vida triste, após tantos anos acordando com seu sorriso ao meu lado na sua cama.
Dizem que quem muito se ausenta um dia deixa de fazer falta, mas e quando a gente não pode evitar a ausência? É muito difícil conciliar tempo com um relacionamento saudável, é difícil sem que não haja mais o toque, o cheiro, aquele brilho no olhar da pessoa a sua frente, o cafuné nos cabelos… São muitos exemplos que demonstram o momento em que eu deixei de fazer falta na sua vida. Eu sei que fiquei desesperado, perdi o controle, sai fora de mim. Era evidente que o passado agora guardava os nossos sonhos enquanto o presente era apenas solidão, e o futuro era puro medo. Eu perdi a paciência, não podia ficar sentado e ver nosso amor sendo destruído aos poucos, por que eu me despedaçava junto com cada pedaço, com cada dia que passava, com cada hora longe do seu abraço. Eu então dessa vez acordei e peguei o ônibus, atravessei mais de 300 quilômetros do estado e pude te encontrar na faculdade naquela tarde nublada, e assim que te vi não foi preciso uma única palavra, seus olhos denunciaram que a sua decisão já havia sido tomada. Um sorriso amarelo surgiu no seu rosto e um longo abraço se seguiu, mas não longo como antes, longo como um adeus. “Eu sinto muito!” e era óbvio demais para ser verdade, era tarde demais.
Foram noites em claro, quis largar a faculdade, quis resetar a minha vida, mas não achava o botão certo. Custou a passar, custei a esquecer cada pedacinho de você que habitava no meu cotidiano. Eu bebi em tequila toda a falta que você me fez, eu morri dez vezes e nasci das cinzas novamente só para poder sofrer mais um pouco. Mas como tudo na vida, um dia passou… Tão rápido foi o nosso amor, tão demorado foi o sofrimento.
Não digo que não funcione, mas como é difícil manter o amor com a distância! A maioria das pessoas se perdem nesses longos quilômetros, exatamente como a gente se perdeu, talvez por que a vida seja única, seja rápida, seja o esboço da própria realidade, não temos tempo para esperar, a gente precisa dos nossos amigos, a gente precisa se divertir, a gente precisa evoluir, aprender, buscar o melhor de nós mesmos, e vez ou outra temos algumas baixas. Mas é realmente uma pena quando ela é alguém que nos ama muito.
Mas hoje, enfim formados, eu te encontro na rua e o sorriso é de alegria. Nossa amizade resistiu, e hoje fico feliz de te ver vencendo na vida, e sei que você também. Muitas pessoas passaram por aqui, amei muitos outros corações, mas continuo sozinho. E você com seu novo namorado parece muito feliz e apaixonada. Eu fico mais do que contente em vê-la sorrindo, fico agradecido por ter feito parte da sua vida, e o amor não deixa de ser isso na verdade, a satisfação em se doar sem precisar de nada em troca.
Ainda me lembro como se fosse ontem do dia em que a distância destruiu o meu amor, mas quando resgato as lembranças eu gosto de pensar que na realidade eu estava errado. A distância me ensinou a erguer a cabeça e viver a minha vida, acho que na verdade devo mudar esse título para: o dia em que a distância me ensinou a amar a vida como ela é.

***CURTE AI!!

sábado, 1 de agosto de 2015

Sou mais do que seu olho pode ver, amor...

    Quando te conheci tudo o que eu queria eram dosagens exageradas do seu amor tão cru, tão cheio de verdades absurdas e até difíceis de engolir. Acho que me encantei pelo seu mau humor matinal, o seu banho demorado e o seu atraso em todos os lugares, e assim me surpreendi comigo mesma, já que eu queria um ser perfeito e gostei de alguém tão cheio de humanidade, sem nada de certo, só o errado, e era esse errado que eu ansiava.

    Sabe quando você acredita tanto em alguém, que deposita todas as expectativas do mundo em cima dela? Você fez exatamente isso... Você me enxergava como a menina indefesa, fraquinha, cheia de bagagens, que nunca cospia o veneno e só conseguia engoli-lo, e depois disso eu me mostrei como uma "big girl", como a pessoa ciumenta, com atitude, que sabia impedir os outros de montarem nela, e então você decidiu que esse papel de erros, defeitos e cortes, não se encaixavam em mim, ou pelo menos não no que você conheceu ou queria do que eu era, e tudo virou uma grande comédia trágica, já que você, tão cheio de imperfeições, não soube lhe dar com o inesperado que eu carregava.

    Eu queria me culpar pelo fim do nosso amor, queria dizer que as minhas revelações deram um ponto final a nossa amizade colorida, mas ser protagonista dessa novela mexicana em que a adolescente sofre até o último capítulo pelo seu amor perdido não era mais digno da pessoa que eu enfim havia descoberto fazer morada em mim, porque você não me amava de verdade.

    Você queria de mim o que lhe era conveniente, os meus ouvidos dispostos a te escutar, as minhas mãos buscando as suas, o meu colo para você repousar quando estivesse cansado, a minha insegurança e a pobre menina que sempre ajudava os outros, e não era isso tudo o que eu tinha, eu sempre fui muito mais, e me desculpa se eu não ofereci o analgésico que você precisava para adormecer a dor que bombardeava aí dentro, mas eu também não o tinha... Tudo o que eu era capaz de ser em determinadas horas, era choro, grito, furacão puro, vontade de existir sem que ninguém tentasse cuidar de mim como se eu fosse um copo de vidro prestes a cair e se quebrar todo.

     Sim meu amor, eu queria mais do que a zona de conforto de cada dia, eu queria poder explodir, sentir meu peito acelerar a cada segundo, queria ser por mim, não me preocupar em atender as expectativas de ninguém, e você queria que eu fosse menos. Eu não quero voltar a minha pose de sofredora, porque finalmente estou crescendo... Consegue entender isso? Eu cresci, eu aprendi a pagar para ver, por isso talvez a distância seja melhor para nós dois, afinal, tudo o que eu quero agora (e você também quer), é espaço, vazio e desconhecido, e sinceramente? Não podemos nos culpar pelas mudanças que o próprio destino implantou.

(Marina Galvão)