quinta-feira, 26 de maio de 2016

Ressaca


Acordou depois de algumas horas de consciência perdida em uma balada qualquer da qual já não se lembrava mais como tinha entrado. Um amigo estava em sua companhia, porém isso não fez muita diferença, pois se sentiu mal por estar naquele estado, se sentiu mais sujo do que os mendigos que cruzava na rua por vezes. Tentou levantar, cambaleante se colocou de pé e teve o primeiro flash de lembranças do que tinha sido aquela noite.
Anteriormente estava em um bar acompanhado de seus amigos, nada que fosse fora do comum. Ele possuía poucos amigos e, naquele dia em específico, não tinha nada para comemorar, saiu de casa com o intuito de pensar, de estar sozinho e por acaso encontrou alguns amigos, estes chamaram outros e logo havia um grupo de cinco amigos. Definitivamente ele não ficou contente com esta situação, estava em um momento pensativo, um momento que não gostaria que fosse interrompido por ninguém. Queria estar junto de seu copo de vodca e pensar sobre a vida. Então, enquanto todos conversavam entre si, sem a menor consideração pelo rapaz que a principio reuniu todos ali, ele começou a pensar.
A noite começara mal, ele voltou à sua adolescência, lembrou-se de sua mãe falando sobre amor, sobre o que era o amor. Ela sempre dizia que ele encontraria um grande amor um dia, e como todo rapaz impaciente, buscou essa pessoa, esse sentimento em todos os lugares onde poderia procurar. Não encontrou o tão falado amor, então se entregou ao álcool. Sentia que aquilo o preenchia e aos poucos se tornou algo entre adicto e aceitável socialmente. Quando teve essa lembrança, seu estomago se revirou, e nesse movimento ele mesmo virou seu copo de vodca.
Pensou em algo que sua ex-namorada dissera para ele alguns anos atrás: “você pode até ser “amado” por todos, mas estará sempre sozinho, sempre”. Ele sentia essa loucura crescer dentro de si, essas palavras atravessavam-no como navalhas afiadas. Em alguns momentos ele até desejava que fossem mesmo. Não conseguia concentrar-se em nada do que estava ocorrendo ao seu redor, nem em seus amigos que queria despistar, nem em seus pensamentos deprimentes de um dia ruim que teve em vida.
Ele continuou a beber, dessa vez, sentiu que precisava perder sua cabeça, precisava não pensar em nada, pois já tinha perdido o momento que tinha planejado. Sentiu suas memórias como um vampiro, sugando toda sua vontade de viver, tirando o mais intimo de si e transformando em algum show estranho que só passava em sua mente. Horas se passaram e ele bebeu até se embriagar completamente. Quando estava bêbado começou a chorar, falou para seus amigos que gostaria que Deus o viesse buscar, e leva-lo para qualquer lugar. E foi neste momento que seus amigos o tiraram do bar. Em sofrimento ele deixou aquele espaço, porém já não sentia mais que sua mente lhe pertencia, pertencia a algum demônio, alguém que era incapaz de se sentir bem, incapaz de se sentir amado, incapaz de desejar. Chorou até seus amigos levarem ele para uma balada, sem a menor consideração pelo que ele realmente sentia naquele momento.
La dentro encontrou todos os placebos necessários para esquecer seus pensamentos, até que desmaiou. Não esqueceu do que se passou, mas queria esquecer, queria esquecer cada segundo que já viveu e focar apenas no que será vivido, mas sabia que isso é impossível. Ele queria apenas estar minimamente feliz, queria parar de mentir para si mesmo, queria encontrar algum motivo realmente útil para continuar vivo, mas no fundo desejava que não tivesse nascido. Ele sabia que a dor era inevitável, mas não encontrava forças para continuar lutando por qualquer coisa que fosse.

Esse foi um dia horrível.

domingo, 15 de maio de 2016

Que amanhã chegue logo, e pra você, meu feliz aniversário.




Eu esqueci o seu aniversário. Esqueci pela primeira vez em oito anos a droga do dia 12. E hoje, quando eu me dei conta disso, eu chorei. Eu chorei de alívio e de dor, porque esquecer seu aniversário talvez seja um pequeno sinal de que eu esteja esquecendo você, e isso ao mesmo tempo me causou alívio e dor. Alívio por talvez finalmente estar deixando você no meu passado e me libertando de algo que tomou tanto do meu corpo e da minha alma, e dor, pelo que a gente não foi e nunca vai ser,mas principalmente pela falta que você faz, mesmo isso não fazendo sentido nenhum.

 Eu tive uma semana de merda, a culpa é toda minha. Metódica, racional, fria, impulsiva, a gente sabe no que dá quando eu resolvo ser tão o oposto do que eu sou e tento racionalizar o que só se deve sentir não é mesmo? Nunca dá em nada bom. Velhos hábitos.

Eu queria te dar um abraço e chorar, chorar muito, dizer pra você deixar de ser tão teimoso e idiota e dar uma chance pra gente. Mas não é assim que as coisas funcionam, não dá pra obrigar ninguém a sentir o que não sente e eu nunca seria tão egoísta assim. Eu preferi te deixar pra sempre a ter que impor meu amor pra você. Eu desisti da gente, o meu cérebro desistiu, mas meu coração é persistente demais.

Nessa persistência eu queria te falar da minha saudade e de todas as coisas boas que eu te desejo, porque aqui, sabendo que esse texto nunca vai chegar até você, eu posso dizer o quanto a sua falta me rasga o peito, o quanto o vazio da sua ausência me deixa um pouco mais vazia, mas também aqui, eu posso dizer o quanto eu te amo, que eu te desejo o mundo de coisas boas e uma felicidade tão plural que você nem consiga verbalizar o quanto tá feliz e isso transborde nos seus olhos.

Meu jeito de resolver as coisas é torto. Eu acho que quando a gente arranca tudo de uma vez dói menos e assim eu fiz com você, devia ter doído menos, mas tá doendo muito até hoje. Que ilusão boba achar que dá pra tirar amor de dentro da gente como se fosse uma coisa que a gente não quer usar mais. Que inocência a minha. Eu até acredito que tenha muito amor do tipo "coisa" por aí, que em um mês já nem se lembra mais o nome, mas meu amor por você é tipo árvore enraizada, daquelas raízes que tomam tudo, que consomem, se estendem e que cê nunca consegue arrancar tudo de uma vez, só arranca o que dá e torce pro resto morrer.

O que dói é que as vezes morre mesmo, mas o que dói mais ainda é que de vez em quando brota.
"Essa ferida meu bem, às vezes não sara nunca. Às vezes sara amanhã..."
Que amanhã chegue logo, e pra você, meu feliz aniversário.

domingo, 8 de maio de 2016

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar... "

Talvez ter sido a expressão prática de amor não tenha sido o suficiente para nós dois. Na verdade, você me ensinou que nada era o suficiente, e embora tenha ficado claro que o meu jeito profundo de ser não se encaixou nas suas superfícies, não vejo motivo para um fim, se tudo o que eu fiz foi mergulhar em você.

     Acredito que tantos passos e pausas tenham simplesmente sido jogados fora, como se o que resta desse amor fosse colocado em uma maré forte, quando eu era calmaria e a sua mente confusa continuava sendo tempestade, como se nós dois estivéssemos em pleno vôo e de repente minhas asas quebrassem, e você, como quem não se importa, continuasse voando sem olhar para trás, sem perceber que todas as minhas raízes estavam completamente nuas diante de você e que esse "pouco caso", só me permitiu algumas doses nada homeopáticas de ser dor, decepção e culpa.

    De certa forma eu penso que talvez a culpa do nosso meio amor tenha sido minha. Talvez se eu tivesse sido menos ciumenta as coisas dessem certo. Talvez se eu soubesse lidar com as perdas apresentadas pelo destino eu não tivesse sofrendo tanto agora, eu não tivesse olhando para o meu coração e enxergando os buracos que foram nele deixado por alguém que me cativou e não se responsabilizou por isso.

     Meu amor, eu nunca soube me despedir, eu nunca soube dizer adeus, mas eu sempre gostei de ter essa possibilidade, só que a sua maneira de abandonar o nosso amor foi algo tão cheio de auto-suficiencia que eu fui privada de um " adeus", "até logo" ou "sopre novos ventos na sua existência", e isso é o que dói, a perda incompleta, pela metade, a despedida com a probabilidade de ter de volta em um dia, mil meses, três anos ou não ter, são essas incógnitas que acabam comigo, que me fazem caminhar pela esquina e enxergar seu rosto em todos os outros rostos, e sentir seu cheiro em todos os outros cheiros, em olhar para dentro de mim e perceber que só tem nós dois, e depois cair em mim e perceber que o "nós dois" não existe mais, ou quase não existe.

    Uma coisa que você me mostrou é que somos formados por passos tatuados alheios, por marcas deixadas por outrem, e você me deixou tantas cicatrizes, que quase todas elas já não machucam mais, todavia existe uma única pausa minha que ainda reflete seu erro de ter ido embora sem explicação, de não ter me deixado ciente de tudo o que pulsa no seu coração e de ter me tornado um ser tão isento de justificativas para um fim, um quase fim ou um suposto recomeço, já que até hoje eu não sei o que aconteceu com nosso amor.

     Não sei o que aconteceu com minhas roupas que repousavam na sua gaveta, nem com aquele porta-retrato congelando um afeto que parecia ser real, mas que se findou sem uma explicação tão concreta quanto, até hoje eu não sei onde todas essas noites de insônia tem me levado, nem até quando olharei para sua janela esperando uma explicação, até hoje não sei se depois da sua chegada na minha vida, eu conseguirei voar de novo com a sua ausência, porque a ferida que você deixou, quebrou as minhas asas e cancelou qualquer probabilidade de vôo longe do seu auxílio, e pode ter certeza, eu odeio essa dependência de um afeto "meio acabado."

  (Marina Galvão)