terça-feira, 16 de setembro de 2014

Uma noite no inferno.






Logo pela manhã já tinha acordada decidida: iria transar aquela noite, sem pudores, sem rodeios e sem mais delongas. E era claro que conseguiria, aliás, suas curtidas no facebook, seus aplicativos de relacionamentos não eram um engano, ela era realmente era uma mulher sensacional, era sedutora ao extremo, usava roupas provocantes, sabia dizer apenas com um olhar o que desejava, ela sabia que por onde passava destruía todos os corações que tocava, muitos eram os homens aos seus pés e ela se sentia extremamente confortável com isso. Era o centro das atenções por onde passava, priorizava seu prazer, além de qualquer outra coisa que encontrava pelo caminho, não tinha o hábito de se importar com ninguém além de poucos amigos, muitos homens que, não esperança de ter uma boa noite de sexo, eram muito complacentes com o que fazia. Era deslumbrante, aos olhos mais atentos possuía poucos defeitos, que ela disfarçava muito bem com uma ótima conversa, extremamente superficial, porém muito convincente, afinal, não importava o conteúdo, pois não confiava em ninguém, não se abria nunca, se fechava em uma concha, que era coberta por sua beleza, o que no fim gerava uma mulher que conseguia sempre o que queria independente dos meios. Enfim, ela acordou pensando que iria transar aquela noite, escolheria o parceiro, levaria para a república onde mora e transaria. Apenas isso. Como sempre fizera antes.
Passou um dia normal, leu seus livros, adorava literatura russa, ficou deitada em sua cama de pijama, pensou boa parte do dia, se engana quem acha que ela pensou no que faria de noite, pensou em seu trabalho, pensou no que acabara de ler, pensou em si, fazia isso com relativa frequência, gostava de sentir a dor de pensar em si, uma dor que só ela conhecia, uma dor que ninguém sequer chegava perto de compreender. Nunca em vida pensara em como conseguiria as coisas, simplesmente pelo fato de que ela sempre conseguia, de uma forma ou de outra. Olhou seu celular, viu inúmeras mensagens de infinitos pretendentes, leu cada uma das mensagens, respondeu apenas dois dos homens, antes de tudo, vale aqui uma explicação de por que ela fez isso. Não os conhecia bem, estava sondando possibilidades, então ela simplesmente adorava flertar livremente com essas pessoas, respondia-as quando convinha, mas nunca deixando um espaço de tempo suficiente para que sumissem e, era claro, eles não sumiriam. O primeiro que respondeu era um homem bobo, era bonito, bem bonito, porém dotado de uma superficialidade atípica, o que irritava ela profundamente, mas sempre que se lembrava de sua beleza pensava que por aquilo valeria a pena, afinal não queria um casamento, apenas sexo. O segundo homem era ainda mais tolo, em um nível que chagava a causar desprezo, era romântico, um idealizador, usava um óculos que era charmoso, tinha uma ótima conversa, mas era um romântico, esse romantismo era paradoxal para ela, ela gostava, afinal, não se nutria somente de sexo, gostava de algumas doses de carinho, alguém que pudesse falar-lhe boas palavras, aquele tipo de conversa aonde o ego de qualquer mulher vai ao espaço, ao mesmo tempo sentia tudo aquilo tão falso, pensava sempre no fato de que ele apenas queria uma bela noite de sexo, mas nem sequer admitia isso, por isso o desprezava tanto, por isso falaria para ele o que fala para todos: “Tome mais um copo antes que eu quebre seu coração”. Ela tinha esse lema, levava isso como um dogma, bizarramente, vivia com essa frase se repetindo inúmeras vezes em sua mente, e agia propositalmente para quebrar alguns corações (vale ressaltar que esse movimento não começou do nada, ela já teve seus momentos, mas pensou bem sobre isso, viveu o suficiente para perceber que nada no mundo poderia lhe ferir, mantinha a boa cara, mas no fundo, tinha suas dores), tinha um prazer nisso, em transformar essas pessoas em corações secos, afinal, considerava bobo esse tipo de relação com as pessoas.
Tirou seu pijama e ficou nua em casa, estava sozinha e foi se olhar no espelho, viu-se, analisou cada curva de seu corpo, virou, olhou as costas, tinha uma bela tatuagem, era grande, e nem um pouco discreta. Ergueu o cabelo, fez uma pose sexy, pensou consigo - se meu corpo irá definhar um dia, o usarei como bem entender – se sentiu livre, pensando sobre suas possibilidades de existência, lembrou-se de um pequeno amor que tivera alguns anos atrás, deu uma risada, abriu a boca e olhou por dentro, ainda tinha a cicatriz no lado interno da bochecha. Vendo aquilo riu novamente, se jogou na cama nua, e adormeceu caída como um saco dormiu um sono pesado, e teve um sonho (sonhou com um rapaz, que parecia um menino, era um rapaz forte, porem delicado, tinha uma sensibilidade fora do comum, ela saia com esse rapaz, eles dormiam juntos, e quando ele estava prestes a cair de sua cama, ela puxava-o de volta, colocava-o contra a parede e dizia: Nunca vou te deixar cair. Esse sonho era muito significativo, ela nunca fizera uma analise do que sonhara, acordava e fazia questão de esquecer tudo, nenhum desejo que não fosse consciente viria à tona dessa forma, então lacrou essa vivencia).
Acordou e já estava escuro fora de seu apartamento. Olhou seu quarto novamente, e sentiu um imenso vazio, não estava contente com essa situação, vestiu uma roupa qualquer, abriu uma cerveja, respirou fundo quatro vezes enquanto olhava um quadro de uma flor. Fez esse movimento por mais alguns minutos e decidiu que era hora de se arrumar. Não vou perder tempo dizendo exatamente o que ela fez ao se arrumar, só é válido ressaltar que, como sempre, estava espetacular, estava deslumbrante aos olhos de qualquer pessoa que a visse. Foi então que saiu de casa.
Seguiu para a boate de sempre, não que fosse a que ela sempre ia, mas era um dos poucos lugares na cidade onde sabia que encontraria alguém interessante, e com um pensamento constante no que gostaria de fazer seguiu seu caminho. Chamou uma ou outra amiga para juntar-se a ela na boate, e ao chegar lá deu de cara com Ana. Uma rápida explicação de quem é Ana. Ana era uma das poucas pessoas que a conhecia bem, mas não eram bem amigas, eram mais rivais, ou qualquer coisa do gênero. Fingiam se aturar, gostavam de estar no mesmo local, gostavam de competir, gostavam de ser o centro das atenções, gostavam de se beijar e provocar as pessoas ao redor, Ana era uma pessoa mais complexa que ela, conseguia o que queria das formas estranhas possíveis, mentia, adorava mentir, Ana tinha o hábito de dizer que era criativa por isso mentia. Enfim, Ana era Ana e nossa personagem não estava feliz em vê-la aquela noite. Por sorte ao chegar viu Ana conversando com um rapaz, que era relativamente bonito e ela parecia bastante distraída com ele, então passou por ela sem cumprimenta-la e foi comprar algo com álcool, não precisou gastar dinheiro, ficou exatos três minutos no bar e alguém se ofereceu para pagar-lhe algo. Pediu algo forte, não queria voltar ao bar tão cedo. Aceitou uma conversa com o ser que lhe pagou uma bebida, mas não estava com vontade de conversar, então tratou de corta-lo como uma foice ceifando uma alma. Foi para área de fumantes, era um local mal iluminado, a pintura na parede era de cor vinho com algumas pichações, e escorado na parede perto do canto direito ela viu um rapaz. Era estranho, sei que estranho não é uma boa explicação, mas tendo em vista o que ela pensou sobre como ele era estranho essa é uma ótima palavra para descrevê-lo. Era magro, usava uma camisa xadrez (a cor era escura, mas por conta a má iluminação ela não conseguiu identificar direito, mas era algo que variava entre preto e azul escuro), suas roupas eram bem justas, tinha um sorriso belo, meio torto, os olhos eram fundos e em sua face havia uma expressão de profundidade misturada com ternura. Ele olhou para ela, tinha percebido que ela estava observando-o, deu uma risada como quem diz: “Te peguei”. Ele acendeu seu cigarro, e ficou parado em seu lugar. Ela se sentiu desafiada, dificilmente algum homem não teria ido conversar com ela depois dessa cena, e ele simplesmente acendeu seu cigarro. Então ela continuou a olha-lo, ele, como em um reflexo, mexeu sua cabeça com o movimento de quem diz: “E aí? Qual é a tua?” Então ela tirou um cigarro de sua bolsa e partiu em direção a ele. Ela pediu o isqueiro, como a cantada mais óbvia possível, esperando que ele fizesse algo, mas ele não fez, apenas entregou-lhe o isqueiro e continuou com sua cara de reflexão e ternura. Então ela puxou algum assunto, para sua surpresa fez isso, não tinha o hábito, nem sequer achava necessário. Ele entrou em sua conversa, conversaram muito, e por muito tempo, mostrando interesse simultaneamente, porém mantendo uma distância saudável e uma cara de nada. Ele estava interessado nela, e obviamente ela ganhou isso, mas não tinha a menor ideia do por que se interessara por ele, ele era algo bem próximo do normal, alguém que não parecia diferente, ao mesmo tempo em que parecia ser diferente.
Conversa vai, conversa vem, estavam cada vez mais interessados, cada um com seus desejos, ela sabia o que queria e ele parecia suficiente para isso, foi então e como um soluço uma lapso saiu de sua boca: “Tome mais um copo antes que eu quebre seu coração”. Ele ficou com uma cara de dúvida e para confirmar fez uma expressão de quem não havia entendido, ela desconversou e continuaram a conversar. Então ele propôs que deveria ir a outro lugar, ela aceitou, mas sem antes perguntar, só para aumentar seu ego, o que ele tinha em mente. E ele sem nenhum escrúpulo, como se fosse um “bom dia” respondeu: “Eu pretendo transar loucamente com você”. Ela riu histericamente da fala dele, adorava uma sinceridade, por mais vulgar e besta que fosse ambos estavam alcoolizados o que deixou o comentário muito mais espontâneo. Saíram da boate aos beijos e ela quis leva-lo para sua casa, ele aceitou.

Tiveram uma ótima noite, memorável. Ao acordar, ela se sentiu ótima, feliz, sentiu algo diferente, teve vontade de abraça-lo, pensou que aquele rapaz estranho, magro e excêntrico tinha sido uma pessoa diferente desde o começo, não caindo totalmente em seus jogos, mantendo seus segredos, chegou e pensar que estava apaixonada, uma paixão de uma noite. Virou-se para abraça-lo e ele não estava mais lá, porém havia um bilhete: “Tomei a liberdade de fazer um café, por que sou folgado...” Ela abriu um sorriso imenso no rosto e seu coração bateu mais forte, então continuou a ler o bilhete: “... tome um copo antes que eu quebre seu coração”. Seu coração parou, arregalou os olhos, sentiu-se preenchida por uma escuridão. Súbito aquilo a desestabilizou, pensou em gritar, ficou com raiva, sentiu-se enganada. Abriu um sorriso de canto e pensou: “Que filho da puta!”. Nunca mais o viu.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Não era amor.



Descia pelo corpo suavemente com aumentos graduais de temperatura.
Assimilava-se a paixão, mas não tinha cores em tons alegres.
Vinha sorrateira sem pedir licença, mas desaparecia em compassos contados de tempo.
Disparava o coração, mas negava a se aceitar dentro do jogo.
Era uma bate e volta sem fim de um preludio pra uma narrativa que jamais aconteceria.
Tinha o ciúme de um por do sol infinito carregado da unanimidade exclusiva de uma manhã fria sem ventos.
Era quase como o engolir seco do medo em um monologo importante com validade significativa.
Tinha asas, mas não voava, vinha de longe e fingia que ficava, mas na manhã seguinte partia.
Era conclusão e hora era dúvida de novo.
Era um desapego constante de estar aprisionado ali.
Tinha cheiro de porto seguro, mas seduzia como um adeus.
Brincava de sedução e traia os olhos logo então.
Se me tinha eu não sabia.
Se for palavra eu deixei de dizer.
Quando é sol, traz paz, quando frio conforto.
Repudia bons momentos com toques especiais de inocência, e quando incendeia leva pra longe o que eu busco toda noite no meu travesseiro, deixar de sonhar aquele mesmo sonho todas as noites, numa angustia sem fim de acordar amanhã sem ter com o que me preocupar. Escrevendo linhas vazias, por falta de amor, por falta de você.

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