Ela desceu do ônibus dois quarteirões e meio da sua casa, e assim que colocou os pés no meio fio um trovão invadiu seus ouvidos, e automaticamente ela olhou para o céu. O cinza tingia o horizonte e escondia o sol por detrás daquelas imensas nuvens carregadas, e no mesmo instante a chuva desaguou sob sua cabeça. Ela tirou o cabelo já encharcado dos olhos e continuou andando lentamente até sua casa. Quando chegou dez minutos depois a chuva já havia diminuído e um arco-íris lindo esboçava suas cores em um lindo céu azul de verão.
Ela entrou molhada, porém confiante pela
porta da sala, atravessou a casa e de frente aos olhos castanhos do homem ali
parado tomou ar para dizer alguma coisa:
-Querido, preciso te contar uma coisa... –
ia dizendo ela antes de ser interrompida pelo sujeito.
-Eu estou indo embora Isabela, minhas
coisas já estão na casa da minha mãe, isso é um Adeus. Eu detesto despedidas –
dizia ele quase que para si mesmo – A gente se vê por ai, boa sorte e até mais.
A porta bateu, e o ar deslocado pelo
movimento esbofeteou o rosto dela, que ali ainda parada no mesmo lugar
continuou falando com as paredes. “Consegui a vaga na gerência da empresa como
sempre sonhei...” e suspirando com desdém concluía sozinha “mas não que você se
importe.” E os dias seguintes foram nublados e tristes como as lágrimas do
adeus geralmente são.
A noite era limpa de um céu carregado de
estrelas, e na sala de estar jazia a mulher realizada e triste, chorando um
misto de felicidade e desespero, de quem perde um sonho em busca de outro. Era tarde demais,
ela sabia, mas seus braços dormentes e seus olhos de ressaca encobriam a força
de uma mulher de verdade, e mesmo tendo todos os sonhos do mundo, soluçou mais
uma vez com o silêncio das estrelas.
Um “hoo” quebrou o clima mórbido daquela
noite, e ela se adiantou até a janela onde uma coruja estava estática em cima do
muro do portão com os olhos fixos, como se a estivesse encarando. Ela ficou ali
observando e a coruja “hoo” outra vez, a cena se repetiu durante uma dúzia de
vezes e ela curiosa saiu para ver mais de perto, mas a coruja havia
desaparecido.
Os dias seguiram e a melancolia e dor
passaram para segundo plano, quando de repente tudo se resumia a curiosidade de
entender o porquê aquela coruja estava ali. Psicólogos diriam que era a mente
lidando com a perda, distraindo os sentimentos, mas no fundo tinha algo mais naquilo tudo. Alguns livros, pesquisas e estudos a tornaram apaixonada pelas
tais corujas, que tinham seus instintos de caça noturnos,
diversas vértebras no pescoço e aqueles olhos apurados e misteriosos...
Mas aquela coruja que toda noite ia
visita-la lhe trazia novos ares de um mistério, que talvez só a vida fosse capaz
de lhe traduzir com o tempo. Noites ficaram para trás, e sempre a visitante
desaparecia do nada. Então ela de repente percebeu, sua vida era sim completa, mais do que
imaginava.
No dia seguinte desceu do ônibus e a chuva
arrastava suas gotas pela atmosfera, e ao chegar em casa a chuva havia parado,
no entanto, não havia um arco-íris no céu. Ela amava o tal arco-íris, mas
sentia que ele aparecia apenas quando ela estava feliz. Ela então pegou a
mangueira, ligou o registro e mirou para o céu. A água subia e descia em forma
de chafariz e aos poucos as cores do arco íris formavam ali pertinho dela o
efeito prismático nas gotas de água, e ela então sorriu, era dona da sua
própria felicidade.
A noite caiu, a TV estava ligada, a panela
no fogo, música tocava nas caixas de som e ela dançava e cantarolava sem motivo
pela casa já de pijamas depois de um banho agradável. Sua alegria tomava conta
do ambiente de tal forma que ela mal pode notar uma visita inesperada na
janela, já dentro de casa, com os pés sob o sofá olhando para ela não mais com
os olhos misteriosos, mas com o olhar curioso, de quem sente a felicidade e
deseja saber como ela pode surgir de uma maneira tão natural e sem sentido
aparente. Ela sorriu para sua já conhecida visita, e ela com o luar nos olhos
respondeu-lhe: “hoo”.
***Gostou? Curte ai, obrigado ;)

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