terça-feira, 9 de agosto de 2011

O músico por trás dos óculos.




O vento batia suavemente nos seus cabelos, a brisa de leve levantava seus cachos em direção ao norte. Ele olhava meio torto ao céu e podia ver cada estrela brilhando no infinito. A última gota de esperança que podia existir caiu dos seus olhos e secou sem tocar o chão. O mundo lá fora continuava, a rotina levava em cada noite as mesmas pessoas aos mesmos acasos, mas hoje ele estava lá, em pé no parapeito, olhando de cima todas aquelas vidas que andavam desordenadamente pelas ruas da cidade, cada uma com uma história, cada um com seus problemas, cada um com seus sonhos, e poucas ali haviam cruzado sua vida. Ele não queria fazer aquilo, ele só olhava para dentro da sua alma e se arrependia, esperava cegamente que uma mão lhe fosse estendida e lhe dissesse ‘desça dai, por favor, eu preciso de você!’ Mas ele sabia que era impossível, além do mais, o que levaria alguém a lhe procurar? Ninguém o tinha naquela noite, ninguém nunca o teve. Ele deu mais uma olhada ao céu, olhou para baixo, deu seu ultimo suspiro, fechou os olhos, abriu os braços e libertou sua alma, caindo no infinito das luzes da cidade...
Mas vamos voltar um pouco no tempo. Quem era o nosso Eduardo?
Desde pequeno a criatividade lhe tomou conta das veias, pouco aqui importa onde estudou, os amigos que teve, onde foi seu primeiro beijo. O que lhe diferenciava do mundo era sua originalidade, e como quem não aguenta aquela onda que surge no coração, não achou outra forma melhor de se expressar como na música. E mesmo contra a família foi em busca do que lhe dava uma paz de espirito.
O garotinho cresceu, não foi uma vida fácil, mas nada que fuja do comum, ele não tinha quase nada, ele apenas queria um pouco de reconhecimento. A necessidade de mostrar seu trabalho era imensa, não a música em si, mas o espirito das suas letras e a emoção dos seus acordes. Era de se imaginar que ele se decepcionaria, ninguém está preocupado em dar atenção ao que os outros vivenciaram. Foram inúmeras vezes sem reconhecimento, sem a percepção da sua presença ali. Ele não queria ser famoso, ele só queria que o ouvissem.
A rotina lhe caiu sob o espirito, e o emprego, como ele chamava agora o tocar, tinha virado um mero ganha pão, pois ela sabia que ninguém nunca se importaria com o que ele era. Na sua vida só lhe restava o pai, era um homem de poucos amigos, nada na vida lhe chamava muito atenção, reservado, silencioso, era um homem de espirito que pensava mais no universo e falava menos, era um misterioso músico por trás dos óculos.
A porta da sua casa abriu e o semblante pálido do seu pai apareceu, ele ficou imóvel, e com meia dúzia de passos tortos seu pai chegou cambaleando até ele e desabou em seus braços. ‘Filho, eu te amo’, e ali mesmo partiu dessa vida. Foram suas ultimas e únicas palavras para Eduardo, que ali em pé, com o pai deitado sob o peito, não sabia mais o que era realidade.
O que faz um homem sem motivos pra viver? Ele não desejava aquela dor nem ao seu pior inimigo, e de repente sem o chão não via mais a necessidade de viver. Desde então só queria encontrar seu pai, vivia perigosamente em meio a tênue linha da vida e da morte. Era um buraco negro no peito que crescia diariamente. Assim a vida continuou na sua rotina.
Foi em tempos assim que ele refletia mais sobre a vida, as pessoas. De cima do palco via das piores coisas possíveis, mulheres casadas passando o telefone para outros homens junto ao marido, dentre infinitas podridões e pecados de uma sociedade imunda de pessoas de baixo caráter. E tudo era um degrau na sua filosofia de vida...

O texto acaba aqui, vou fazer algo diferente hoje, você decidira a vida de Eduardo. Dar-te-ei o privilégio de decidir seu futuro. O que vai ser?
Eduardo conheceu uma moça especial, uma mulher maravilhosa, que lhe deu um novo sentido de vida, lhe colocou de volta na realidade, ele continuou trabalhando, assumiu seus filhos, montou uma família e permaneceu numa vida mediana, mas feliz, com pessoas que o amavam, e assim estacionou-se numa vida comum.
Agora se Eduardo pular, ele vai terminar com sua vida e terminar em todos os jornais do país, um empresário milionário vai se interessar e tornará suas musicas populares. Como clássicos de quem viveu uma vida intensa, e um mártir para a sociedade, se tornara um ídolo da musica para todo o país, algo que ele jamais saberá, mas que ele sempre sonhou.
Pode ser fácil escolher, a intenção não é ser difícil, a questão é, mas quantos músicos pulariam?

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